As aves "perdidas" da Ilha de Galápagos que voltaram a ser vistas 200 anos depois
Redescoberta da sanã-das-galápagos em Floreana reforça importância da restauração ambiental, quase dois séculos após observação histórica de Darwin, e reacende esperanças para conservação de espécies ameaçadas no arquipélago equatoriano único.

Quase duzentos anos depois de ter sido registrada pela última vez, uma ave rara voltou a habitar exatamente o mesmo local onde foi descrita por Charles Darwin, no século 19. O reaparecimento da sanã-das-galápagos (Laterallus spilonota) na ilha de Floreana, no arquipélago de Galápagos, foi confirmado em 2025 por uma equipe internacional de pesquisadores e é considerado um evento excepcional para a conservação da biodiversidade.
Em setembro de 1835, Darwin desembarcou em Floreana e realizou observações que se tornariam fundamentais para a formulação de sua teoria da evolução das espécies. À época, a pequena e discreta sanã, ave de hábitos majoritariamente terrestres e voo limitado, foi coletada e descrita pelo naturalista britânico. Desde então, nenhum outro registro documentado havia sido feito na ilha.
Desaparecimento silencioso e ameaça dos predadores
Após o século 19, a sanã-das-galápagos desapareceu completamente de Floreana. Especialistas acreditam que a espécie tenha sido extremamente vulnerável à introdução de predadores exóticos, como gatos e ratos, trazidos por navegantes e colonizadores. Esses animais passaram a predar ovos, filhotes e espécies de pequeno porte, alterando drasticamente o equilíbrio ecológico local.

Segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), até 95% das espécies de Galápagos evoluíram sem a presença de predadores mamíferos. Em Floreana, esse impacto foi devastador: estima-se que até metade das espécies nativas da ilha tenha desaparecido ao longo do tempo. O próprio Darwin classificou os predadores introduzidos como uma “grande praga” para os ecossistemas insulares.
Restauração ambiental e resultados imediatos
O retorno da sanã está diretamente associado a um ambicioso projeto de restauração ambiental iniciado no final de 2023. Liderada pela Direção do Parque Nacional de Galápagos, a iniciativa reúne organizações como a Charles Darwin Foundation, Island Conservation, Jocotoco Conservation Foundation e instituições científicas internacionais.

O projeto promoveu a erradicação em massa de predadores terrestres invasores, seguindo protocolos internacionais da FAO e da IUCN. De acordo com a Charles Darwin Foundation, os resultados foram “quase imediatos”, com uma segunda fase prevista para 2026.
Ecossistema em recuperação e novas perspectivas
Monitoramentos realizados em 2025 indicam um aumento significativo de espécies nativas, como pombas-das-galápagos, lagartos de lava, lagartixas e o papa-lagarta-acanelado. Pesquisadores também observaram mudanças comportamentais nas aves, incluindo novos padrões de vocalização, interpretados como uma forma de “evolução cultural” local.
O projeto agora prevê a reintrodução de outras 12 espécies nativas de Floreana na próxima década, algumas das quais só existiam na época de Darwin. Entre os maiores sucessos recentes está o repovoamento das tartarugas-gigantes, com mais de 9 mil indivíduos reintroduzidos ao longo das últimas décadas, consolidando Floreana como um símbolo de esperança para a conservação global.
Referências da notícia
Revista Fórum. 200 anos depois de ter sido avistada pela última vez por Charles Darwin, espécie rara volta a habitar ilha natal. 2026