Antidepressivo é encontrado no cérebro de tubarões do litoral do Rio de Janeiro
Pesquisa da UFRJ detecta sertralina no cérebro de tubarões-martelo capturados no litoral do Rio de Janeiro e acende alerta sobre impactos da poluição por medicamentos na vida marinha.

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) identificou, pela primeira vez, a presença de sertralina (princípio ativo de um dos antidepressivos mais consumidos no Brasil) no tecido cerebral de tubarões-martelo capturados na costa do estado do Rio de Janeiro. A descoberta reforça a preocupação com os impactos da contaminação por resíduos farmacêuticos nos ecossistemas marinhos.
A pesquisa, ainda em fase de publicação científica, foi desenvolvida no âmbito do Projeto EcoShark, que monitora a saúde de tubarões no litoral fluminense desde 2018. O trabalho é coordenado pela professora Mariana Batha Alonso, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da UFRJ, em parceria com os pesquisadores José Neto e Victor Alves.
Os cientistas encontraram a substância no cérebro de exemplares das espécies Sphyrna lewini e Sphyrna zygaena, ambas classificadas como criticamente ameaçadas de extinção. Os animais foram capturados acidentalmente por pescadores nas regiões do Recreio dos Bandeirantes, Barra da Tijuca e Copacabana, em uma colaboração entre comunidades pesqueiras e a equipe de pesquisa.
Resíduos de medicamentos percorrem o caminho até o oceano
A sertralina é atualmente o antidepressivo mais prescrito no Brasil. Após ser metabolizada pelo organismo, parte da substância é eliminada pela urina e segue para os sistemas de esgoto. Como as estações convencionais de tratamento não foram projetadas para remover completamente compostos farmacêuticos, resíduos desses medicamentos acabam chegando aos rios e ao mar.
Segundo os pesquisadores, essas moléculas podem ser absorvidas por peixes, invertebrados e outros organismos marinhos diretamente pela água ou por meio da cadeia alimentar. Como predadores de topo, os tubarões acumulam contaminantes presentes em suas presas, tornando-se importantes indicadores da qualidade ambiental dos oceanos.
Achado amplia preocupação com efeitos sobre a fauna marinha
Embora a presença da sertralina no cérebro dos tubarões tenha sido confirmada, os pesquisadores ressaltam que ainda não é possível afirmar quais efeitos a substância provoca nesses animais. Em seres humanos, o medicamento atua sobre o sistema serotoninérgico, responsável pela regulação do humor, e proteínas semelhantes também estão presentes em outros vertebrados.

Experimentos realizados anteriormente com peixes de laboratório já demonstraram que concentrações de sertralina semelhantes às encontradas em ambientes aquáticos podem provocar alterações comportamentais, como redução da atividade locomotora e prejuízos ao aprendizado. No entanto, ainda não existem estudos capazes de demonstrar como esses compostos afetam a fisiologia e o comportamento de tubarões.
A preocupação ganha força porque este não é um caso isolado. Em março de 2026, uma pesquisa publicada na revista Environmental Pollution identificou cocaína, cafeína, analgésicos e outras substâncias no sangue de tubarões próximos às Bahamas. Estudos brasileiros também já registraram antibióticos e opioides em diferentes espécies de tubarões, indicando que a contaminação por fármacos pode ser um fenômeno cada vez mais frequente nos ambientes marinhos.
Estudo reforça necessidade de ampliar monitoramento ambiental
Os pesquisadores defendem que a descoberta evidencia a necessidade de incorporar o monitoramento de resíduos farmacêuticos às políticas de conservação da fauna marinha. Segundo a equipe, projetos como o EcoShark e o EcoDELFIS já desenvolveram metodologias capazes de rastrear esses contaminantes em tubarões, raias e cetáceos, mas dependem de financiamento contínuo para ampliar as investigações.
Outra medida considerada essencial é a modernização das estações de tratamento de esgoto, permitindo a remoção de micropoluentes farmacêuticos antes que eles sejam lançados nos ambientes aquáticos. Para os cientistas, reconhecer medicamentos como poluentes emergentes é um passo importante para reduzir os impactos sobre espécies ameaçadas e sobre o equilíbrio dos ecossistemas costeiros.
O estudo foi financiado pelo Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC-UFRJ), pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). O SubProjeto EcoShark integra o Projeto de Pesquisa Marinha e Pesqueira, desenvolvido como medida compensatória prevista em Termo de Ajustamento de Conduta conduzido pelo Ministério Público Federal no Rio de Janeiro, com responsabilidade da empresa PRIO.
Referência da notícia
G1. (2026). Biólogos encontram antidepressivo no cérebro de tubarões do litoral do Rio de Janeiro.