Como os cristais de açúcar podem revelar sinais de matéria escura?
Cristais serão usados em experimentos que buscam detectar partículas ainda hipotéticas mas previstas pelo modelo padrão de partículas.

A matéria escura é um dos maiores mistérios dentro da Astronomia porque nunca foi observada diretamente, apesar de evidências da sua existência. Observações de rotação de galáxias, lentes gravitacionais e da radiação cósmica de fundo indicam que existe mais massa no Universo do que conseguimos observar da matéria visível. Como essa componente não interage com campo eletromagnético, ou seja, com a luz ela permanece invisível para nós.
Por causa disso, diversos modelos teóricos foram propostos para explicar a natureza da matéria escura. Diferentes teorias preveem massas, interações e propriedades distintas para essas partículas. Entre as candidatas mais conhecidas para a matéria escura estão as chamadas WIMPs, partículas hipotéticas que interagiriam muito pouco com matéria comum. Além das WIMPs, outras opções continuam sendo investigadas, como áxions, neutrinos estéreis e partículas ultraleves.
Um estudo recente conduzido por pesquisadores brasileiros propõe utilizar cristais de açúcar como ferramenta para aumentar a sensibilidade de detectores de matéria escura. A ideia é usar propriedades estruturais desses cristais para detectar interações produzidas por partículas atravessando o material. Quando uma possível partícula de matéria escura interage com o cristal, ela pode gerar excitações detectáveis experimentalmente. Como os sinais esperados são fracos, materiais estruturados podem melhorar a capacidade de detecção.
O que é matéria escura?
A matéria escura é uma componente do Universo que não emite, absorve ou reflete luz de maneira detectável, mas sua presença pode ser inferida por seus efeitos gravitacionais. A principal evidência da existência da matéria escura vem da dinâmica de galáxias, onde estrelas nas regiões externas orbitam muito mais rápido do que seria esperado. Esse comportamento indica a presença de uma quantidade de massa invisível envolvendo as galáxias em halos gravitacionais.
A matéria escura corresponde a cerca de 27% do conteúdo total do Universo, enquanto a matéria comum representa apenas cerca de 5%. A matéria escura também desempenha um papel na formação de galáxias e aglomerados. Sem sua influência gravitacional, a matéria visível sozinha não conseguiria formar galáxias desde o Big Bang. Simulações cosmológicas mostram que halos de matéria escura atuam como estruturas gravitacionais onde galáxias se formam e evoluem.
A natureza da matéria escura
Apesar das fortes evidências gravitacionais, a natureza da matéria escura ainda permanece desconhecida. Isso impede sua observação direta por telescópios, que dependem da detecção de luz. Até hoje, a matéria escura só foi identificada através de seus efeitos gravitacionais sobre estrelas, galáxias e aglomerados. O grande desafio é que os experimentos de detecção direta procuram sinais extremamente fracos e raros.
Diversas hipóteses foram propostas para explicar a matéria escura, envolvendo novas partículas e modificações da gravidade. Entre as candidatas mais conhecidas estão as WIMPs. Outra possibilidade envolve os áxions, partículas ultraleves e modelos com neutrinos estéreis. Em paralelo, algumas teorias sugerem que os efeitos atribuídos à matéria escura poderiam surgir de modificações nas leis gravitacionais em grandes escalas. Até o momento, nenhuma dessas hipóteses foi confirmada experimentalmente.
Açúcar
Na busca de estudar a natureza da matéria escura, pesquisadores brasileiros estão investigando o uso de cristais de açúcar como detectores na busca de matéria escura. Esses cristais possuem alta concentração de hidrogênio que é formado por núcleos leves e, com isso, favorecem a transferência de energia em colisões com possíveis partículas de matéria escura. Outra vantagem é a capacidade de operar em temperaturas próximas do zero absoluto.

Os cristais são acoplados a sensores capazes de registrar variações térmicas. Quando uma possível partícula de matéria escura atravessa o cristal, ela pode transferir uma quantidade de energia para a rede cristalina. Essa energia gera vibrações microscópicas, produzindo um pulso térmico que pode ser detectado pelos sensores. Em alguns casos, a interação também pode gerar emissão de luz. A relação entre o sinal térmico e a luz emitida depende do tipo de partícula envolvida na interação.
Como funciona?
Segundo o novo estudo, a ideia é usar cristais de açúcar como detectores de eventos raros para procurar possíveis interações de matéria escura. Os cristais são resfriados a temperaturas baixas, próximas do zero absoluto porque reduz o ruído térmico. Nessas condições, quantidades de energia depositadas por partículas tornam-se detectáveis. Sensores registram simultaneamente o sinal térmico e o sinal luminoso gerados na interação.
A comparação entre esses dois sinais permite distinguir eventos físicos reais de ruídos de fundo causados por radiação ambiente. Atualmente, a técnica ainda está em desenvolvimento e vários parâmetros precisam ser calibrados e otimizados. Um dos principais desafios é determinar o limiar mínimo de energia que o detector consegue registrar com precisão. Caso a performance experimental seja confirmada, os cristais poderão ser integrados a futuros detectores de matéria escura.
Referência da notícia
Bento et al. 2026 The SWEET Project: Probing Sugar Crystals for Direct Dark Matter Searches IEEE Transactions on Applied Superconductivity
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