Temporada de furacões e a neutralidade do ENOS

O fraco El Niño que estava em vigor entrou em condições de neutralidade nos últimos dias. Isso pode implicar em futuras ameaças à bacia do Atlântico, visto que a ausência do El Niño tende a aumentar o número de sistemas tropicais nomeados ao longo da temporada de furacões.

Bruno César Capucin Bruno César Capucin 11 Ago. 2019 - 13:29 UTC
Registro de um furacão no Golfo do México

A temporada de furacões do Atlântico está oficialmente aberta desde o dia primeiro de junho e terminará em 30 de novembro. De acordo com a climatologia, o pico da temporada ocorre no mês de setembro. No entanto, a atividade dos furacões depende de uma série de interações complexas do nosso clima.

Nos últimos dias, os principais órgãos de meteorologia internacional que monitoram o El Niño Oscilação Sul (ENOS) reconheceram a neutralidade do fenômeno. “Os padrões na maioria das variáveis atmosféricas também estão mostrando condições neutras para o ENOS. As previsões dos modelos sugerem a permanência da neutralidade durante o outono e inverno do Hemisfério Norte”, diz o resumo mensal do status do ENOS publicado no site da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos.

O El Niño refere-se ao aquecimento acima da média das águas no centro-leste do Pacífico equatorial. Devido a vastidão do Pacífico, o fenômeno altera o clima regional e global através das mudanças nos padrões de circulação geral da atmosfera, impactando diretamente os regimes de precipitação e temperatura no trópico e nas latitudes médias. Condições neutras do ENOS como a de agora, ocorrem quando não há nem El Niño e nem La Niña.

A neutralidade do ENOS sugere que a temporada de furacões deste ano pode ser mais ativa. Mas para saber o potencial de atividade das tempestades, além do ENOS, os meteorologistas também monitoram a temperatura do Atlântico e a intensidade da monção africana, assim como as plumas de poeira que deixam o Saara em direção as Américas, já que todos esses fatores afetam o desenvolvimento das trovoadas no trópico.

Em anos de neutralidade do ENOS, curiosamente, o número de tempestades e furacões nomeados é semelhante ao dos anos de La Niña, com base na climatologia da NOAA de 1995-2016. Geralmente, em uma temporada de furacões com neutralidade do ENOS, 12 tempestades e 9 furacões são nomeados em média, sendo que dos 9 furacões, 3 são de categoria 3 ou superior. O ENOS pode afetar a atividade tropical no Atlântico e leste do Pacífico em decorrência de suas interações com a atmosfera.

Relação do El Niño com a atmosfera

Em uma condição de forte El Niño, a convecção aprimorada no Pacífico equatorial intensifica a célula de Hadley, aumentando a subsidência e o cisalhamento do vento em áreas estratégicas para o desenvolvimento das tempestades, o que prejudica a evolução tropical dos sistemas. Só que esses ingredientes que suprimem os furacões não estarão presentes nesta temporada. Deste modo, o sinal tende a estar verde para o fortalecimento dos distúrbios tropicais no Atlântico entregues pela África. Esses distúrbios são lotes de energia na atmosfera que se desenvolvem a partir do forte contraste de temperatura entre o ar profundamente quente e seco sobre o deserto do Saara e o ar mais frio e úmido das florestas do Golfo da Guiné e da África central.

As ondas tropicais que deixam a África podem levar entre uma a duas semanas até chegarem na região do Caribe. Entretanto, nem todas sobrevivem a tamanha jornada, já que o ambiente atmosférico pode se tornar hostil durante o longo percurso.

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