Seca e poluição química intensificam espuma branca no Rio Tietê em Salto, SP
A Companhia Ambiental explicou que as chuvas isoladas lavaram os poluentes acumulados em rios menores, transportando essa carga química concentrada diretamente para o Rio Tietê.
Uma densa camada de espuma branca voltou a cobrir o rio Tietê no município de Salto na última quarta-feira (13), em São Paulo. O fenômeno, recorrente na região, decorre do descarte de esgoto doméstico e industrial sem tratamento vindo da Grande São Paulo.
A falta de chuva agrava o cenário ao reduzir a vazão do rio e concentrar os resíduos químicos na água. Segundo dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), a seca desde 10 de maio intensificou esse acúmulo.
Riscos bacteriológicos e dinâmica química das espumas
O surgimento do manto branco está ligado à presença de surfactantes, como o sulfonato de alquilbenzeno linear, comum em produtos de limpeza. Quando o efluente passa por quedas d'água e corredeiras, a forte agitação mecânica atua como um misturador, gerando bolhas estáveis.
Pesquisas publicadas na Revista DAE revelam a presença de bactérias como Pseudomonas aeruginosa, coliformes totais e fecais, além do patógeno Salmonella sp. A dispersão das bolhas pelo vento propaga esses agentes em aerossóis, trazendo graves riscos sanitários para as áreas urbanas.
Histórico de monitoramento e impactos socioambientais
Historicamente, o problema persiste desde a popularização dos detergentes sintéticos e o avanço da urbanização na década de 1980. Mesmo com a introdução de tensoativos biodegradáveis a partir de outubro de 1982, as espumas continuam ocorrendo porque o composto exige oxigênio para se degradar.
Como o rio Tietê apresenta condições anóxicas com oxigênio dissolvido próximo a zero, a decomposição desses produtos químicos se torna muito lenta. Essa barreira física impede a reoxigenação da coluna d'água, provocando anoxia severa no ecossistema e inviabilizando totalmente a sobrevivência da vida aquática.

O acúmulo de matéria orgânica sob digestão anaeróbia também provoca a liberação de gás sulfídrico, gerando odores fétidos que prejudicam os moradores. Consequentemente, as atividades comerciais locais e o turismo regional, focado nas quedas d'água naturais de Salto, sofrem severos prejuízos econômicos.
Ações governamentais e metas de saneamento
Para monitorar esse cenário, o Grupo de Fiscalização Integrada das Águas realizou 419 inspeções na região desde março de 2025. O órgão estadual investiu três milhões de reais desde 2023 em seis estações automáticas e mantém 27 pontos de coleta de amostras.
A prefeitura de Salto declarou em nota oficial que todo ano esse fenômeno acontece e só acabaria se as cidades da Grande São Paulo cessassem o lançamento da poluição. O município tenta mitigar os impactos participando do programa estadual Integra Tietê.
Essa política pública foca na gestão por sub-bacia e no uso de sensores, complementando as metas do Marco Legal do Saneamento Básico. As diretrizes nacionais estipulam que, até 2033, as cidades brasileiras devem atingir 90% de tratamento de esgoto e 99% de atendimento em água.
Especialistas apontam que a erradicação definitiva da espuma exige o emprego de processos de oxidação avançada e biorreatores de membrana. Contudo, a eficácia definitiva dessas tecnologias exige a modernização das grandes estações da Sabesp e a eliminação completa de ligações clandestinas de esgoto.
Referências da notícia
'Mar de espuma' branca volta a cobrir o Rio Tietê em Salto. 13 de maio, 2026.
Presença de bactérias nas espumas formadas no rio Tietê em Pirapora do Bom Jesus. setembro, 1984.
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