O paradoxo que desafia a física: o mistério da água quente congelar primeiro que a água fria
Quando o impossível parece real: um fenômeno que desafia a lógica e deixa cientistas perplexos. Ele tem um nome, e hoje vamos lhe contar qual é.

E se aquilo que consideramos óbvio nem sempre for verdade? Na cozinha, no laboratório ou em um lago congelado, a água continua guardando segredos que intrigam até mesmo a física moderna.
Um dos mais intrigantes é este: sob certas condições, a água quente pode congelar mais rápido do que a água fria. Um paradoxo tão contraintuitivo que, durante séculos, foi descartado como um erro. Até que a ciência teve que ceder às evidências.
Ciência versus intuição: o mistério do congelamento da água quente
Esse comportamento aparentemente impossível é conhecido como efeito Mpemba, em homenagem a Erasto Mpemba, um estudante tanzaniano que, em 1963, observou que uma mistura quente para fazer sorvete congelava mais rápido do que uma mistura mais fria.
Hoje sabemos que o efeito Mpemba é real, mas também condicional: não ocorre sempre, nem em todas as circunstâncias. Depende de diversas variáveis, como a temperatura inicial, o tipo de recipiente, o ambiente, a composição da água e até mesmo o método de resfriamento. É precisamente essa complexidade que o torna um desafio científico em aberto.
O que é exatamente o efeito Mpemba?
De forma simplificada, o efeito Mpemba descreve a situação em que uma amostra de água inicialmente mais quente atinge o estado sólido antes de uma mais fria, quando ambas são submetidas às mesmas condições de congelamento. Isso não significa que a água mais quente esfria mais rápido em todos os momentos, mas sim que ela atinge o ponto de congelamento mais cedo.
DID YOU KNOW? ️
— Jay Anderson (@TheProjectUnity) June 6, 2025
Hot water can sometimes freeze faster than cold water through a bizarre phenomenon called 'The Mpemba Effect' and scientists still dont fully understand why. pic.twitter.com/kF8RFAZWu2
Esse fenômeno não viola as leis da termodinâmica, mas destaca que os processos de transferência de calor e as mudanças de fase na água são muito mais complexos do que os modelos básicos sugerem.
A evaporação é um dos fatores: menos água para congelar, menos tempo necessário
Uma das hipóteses mais frequentemente citadas é a evaporação. A água quente evapora mais rapidamente, reduzindo sua massa total. Menos água significa que menos energia é necessária para congelá-la, o que poderia acelerar o processo.
No entanto, essa explicação por si só é insuficiente: o efeito Mpemba também foi observado em recipientes fechados, onde a evaporação é mínima. Portanto, embora relevante, não explica todos os casos.
The physics of hot water freezing mid air
— Science girl (@sciencegirl) December 3, 2025
Sometimes called the Mpemba effect
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Outra linha de pesquisa concentra-se nas correntes de convecção. Em água quente, o calor é redistribuído de forma mais eficiente: a água mais quente sobe e a água mais fria desce, facilitando uma perda de energia mais rápida e uniforme.
Em contraste, a água inicialmente fria pode desenvolver camadas térmicas mais estáveis que retardam a dissipação de calor. Essa diferença na dinâmica interna do líquido pode influenciar significativamente o tempo de congelamento.
Como a perda de gases e mudanças moleculares influenciam o gelo
A água contém gases dissolvidos, como oxigênio e dióxido de carbono, cuja quantidade diminui quando aquecida. Alguns estudos sugerem que um menor teor de gases pode alterar a forma como os cristais de gelo se formam, promovendo um congelamento mais rápido.
A isso se soma a complexa estrutura molecular da água, com ligações de hidrogênio que se alteram de acordo com a temperatura. O aquecimento da água pode modificar essa rede interna de tal forma que, ao resfriar, ela se reorganiza mais facilmente em uma estrutura sólida.
El efecto Mpemba es el nombre de este increíble efecto realizado generalmente con agua pic.twitter.com/J6h0jmajII
Enséñame de Ciencia (@EnsedeCiencia) August 23, 2024
Longe de ser completamente compreendido, o efeito Mpemba continua sendo objeto de intensa pesquisa. Experimentos recentes mostram que, em condições controladas, até 10 %–15% das amostras de água quente congelam mais rapidamente do que as de água fria, dependendo de fatores como a pureza da água, o tipo de recipiente e a temperatura inicial.
Não existe uma única teoria que explique todos os casos, e os cientistas concordam que se trata de um fenômeno multifatorial, resultante da interação entre evaporação, convecção e alterações na estrutura molecular.