Novo estudo revela como espécie invasora compromete a água e aumenta o risco de incêndios na Serra do Cipó, em MG

Cientistas e especialistas recomendam a proibição urgente do plantio de pastagens exóticas perto de unidades de conservação para conseguir salvar o que ainda resta da vegetação endêmica.

Fruto da planta capim-braquiária, que vem preocupando pesquisadores. Foto: Sheldon Navie
Fruto da planta capim-braquiária, que vem preocupando pesquisadores. Foto: Sheldon Navie

A paisagem da Serra do Cipó, em Minas Gerais, enfrenta uma grave ameaça que avança de forma descontrolada. Introduzida no Brasil oficialmente em 1952 para impulsionar a pecuária nacional, a espécie de gramínea africana conhecida como capim-braquiária (Urochloa decumbens) extrapolou as cercas das fazendas rapidamente. Atualmente, a planta domina as margens de rodovias, impulsionada fortemente pela movimentação de terra e sementes durante as obras de pavimentação da MG-010, e invade os raros campos rupestres, sufocando a flora nativa e alterando a dinâmica ambiental da região.

O cenário preocupante foi detalhado em um alerta recente elaborado pelo Centro de Conhecimento em Biodiversidade. A expansão contínua dessa espécie cria um tapete denso sobre o solo, liberando compostos químicos que impedem a germinação e o crescimento de sementes endêmicas através de fortes efeitos alelopáticos. Muito além de modificar a estética do bioma, a permanência da invasora compromete processos ecossistêmicos básicos, gerando reflexos bastante negativos na sobrevivência da vida selvagem.

Ameaça hídrica e aumento do risco de incêndios florestais

O impacto imediato da proliferação desordenada desse vegetal incide diretamente sobre a água. Por possuir raízes profundas e volumosas, a planta bloqueia a infiltração da chuva e altera o escoamento na superfície. Essa interferência mecânica acelera a erosão do solo e coloca em risco a manutenção das nascentes, provocando a redução progressiva do recurso disponível para o abastecimento humano e hidratação da fauna local.

Relatório técnico detalha como o capim-braquiária altera a infiltração de água e afeta animais na Serra do Cipó. Foto: Geraldo W. Fernandes
Relatório técnico detalha como o capim-braquiária altera a infiltração de água e afeta animais na Serra do Cipó. Foto: Geraldo W. Fernandes

Somado ao enorme dano hídrico, a forrageira age como um poderoso combustível na estiagem. O acúmulo contínuo de biomassa seca facilita a propagação rápida do fogo. Como a herbácea rebrota rapidamente após o corte ou as chamas, os habituais incêndios florestais se transformam em eventos frequentes, de grandes proporções e extrema dificuldade de controle pelas brigadas.

“A presença dessa espécie exótica invasora na Serra do Cipó representa uma ameaça ecológica significativa aos ecossistemas locais, especialmente ao campo rupestre e a outras formações campestres naturais”, alertam os pesquisadores no relatório oficial do estudo.

O alto preço financeiro da recuperação ambiental

Tentar reverter a contaminação biológica depois que a raiz se estabelece gera um custo financeiro exorbitante. Conforme o estudo técnico, restaurar um hectare infestado demanda gastos elevados e constantes. O controle químico com herbicidas custa cerca de R$ 1.813,00, enquanto a semeadura de nativas exige R$ 2.780,00 e o uso de coberturas plásticas chega a impressionantes R$ 3.578,00. Tais cifras deixam evidente que aplicar verbas públicas na erradicação precoce desponta como a medida econômica mais inteligente.

Relatório revela que a recuperação de áreas degradadas pela gramínea invasora exige planejamento rigoroso. Foto: Geraldo W. Fernandes
Relatório revela que a recuperação de áreas degradadas pela gramínea invasora exige planejamento rigoroso. Foto: Geraldo W. Fernandes

Para garantir a regeneração verdadeira das espécies locais, os especialistas recomendam que o monitoramento das áreas limpas dure pelo menos seis anos. Ironicamente, iniciativas atuais de recuperação de áreas degradadas ainda utilizam essa mesma pastagem exótica por puro desconhecimento. Para frear o retrocesso, é sugerido implementar um zoneamento ecológico rigoroso nas zonas de amortecimento dos parques estaduais.

Como a comunidade pode ajudar no combate à invasora?

Nenhuma tática de supressão biológica atingirá resultados duradouros sem o acolhimento de quem habita as montanhas mineiras. Moradores e produtores rurais desempenham papel indispensável no monitoramento contínuo das trilhas e encostas. Essa vigilância comunitária permite detectar e arrancar os focos primários através de mutirões organizados antes do período de floração, poupando tempo e recursos estatais.

A conservação efetiva exige aliança verdadeira entre ciência, órgãos de fiscalização e sociedade civil. Assegurar um futuro limpo e sustentável requer a interrupção da reprodução dessa ameaça vegetal, protegendo a vida nativa que resiste de forma resiliente em cada fresta de rocha da região.

Referências da notícia

Capim-braquiária ameaça nascentes e favorece erosão e incêndios na Serra do Cipó. 12 de março, 2026.