É seguro comer pescado do Nordeste?

As localidades atingidas pelo óleo continuam aumentando e já temos pontos de poluição no Espirito Santo. Diante dessa emergência ambiental, especialista alertam sobre os riscos no consumo de peixes e frutos do mar das áreas atingidas pelo petróleo e seus derivados.

Carolina Barnez Carolina Barnez 15 Nov. 2019 - 13:10 UTC
Mais estudos devem ser feitos para certificar o não comprometimento dos recursos pesqueiros na nossa costa. Créditos: Marina Silva/Arquivo CORREIO

A lista de localidades atingidas pelo vazamento de óleo que afeta o Nordeste continua aumentando. Segundo relatório oficial do Ibama (11/11), já são 466 pontos poluídos ao longo de 10 Estados brasileiros. Em meio aos efeitos colaterais sérios deste desastre está o comprometimento das atividades pesqueiras e marisqueiras. Declarações de especialistas e uma carta aberta elaborada por médicos veterinários na semana passada alertam sobre os perigos do consumo de peixes e frutos do mar proveniente das áreas contaminadas.

Um dos maiores problemas é a contaminação da base da cadeira alimentar marinha, o plâncton. Estes organismos microscópicos são consumidos por organismos maiores, que são consumidos por peixes menores, crustáceos (camarões, lagostas, caranguejos, siris), peixes maiores, mamíferos, aves e tartarugas e assim por diante. Ao longo da cadeia alimentar, as substâncias tóxicas do óleo são transferidas e acumuladas.

Organismos filtradores, como mexilhões e ostras apresentam também grande riscos de contaminação. Isso porque eles se alimentam também de plâncton e outros nutrientes disponíveis na água do mar. Quanto estes animais "filtram" a água para sua alimentação acabam absorvendo também o óleo. O ser humano é o consumidor de topo da cadeia alimentar e pode receber essas substâncias prejudiciais à saúde através da ingestão desses recursos marinhos variados.

Em um vídeo da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), o Prof. Dr. Mauro Melo Junior fala que em algumas localidades, o óleo já está com o nível de fragmentação similar ao tamanho corporal do plâncton. Amostras coletadas na Baía de Tamandaré (PE) mostram que alguns microrganismos estavam com pontos de óleo no corpo. O Prof. Melo Jr. fala que ainda não há segurança para afirmar que estas partículas causam danos aos plâncton, mas que a descoberta é motivo de atenção.

Estudos mais amplos e profundos sobre o nível de toxicidade, danos aos organismos, impactos na cadeia alimentar, e consequente impacto nos recursos pesqueiros, já estão em andamento e devem ser feitos de forma cautelosa. As amostras usadas devem ser significativas para cada região. O estudo da PUC-Rio, que foi usada pelo Ministério da Agricultura para garantir a segurança do pescado nordestino, analisou um total de 21 amostras de peixes e lagostas coletados em 4 Estados, sendo que apenas os resultados de 12 dessas amostras foram divulgados no parecer do Ministério. O Prof. Renato Carreira, um dos autores do trabalho, afirma que os dados não permitem dizer que a pesca esteja liberada, nem que não haja animais contaminados.

Sabemos que a atividade pesqueira e marisqueira tem grande relevância econômica para a região, e parte da população depende desses recursos para sobrevivência. No entanto, deve existir cuidado e seriedade no monitoramento da qualidade dos recursos marinhos durante e pós esta emergência ambiental, uma vez que a saúde da população pode ser comprometida a longo prazo. A ingestão de animais marinhos contaminados pode causar diversos efeitos agudos e crônicos no organismo. Dentre os efeitos agudos estão úlceras gástricas, náuseas, vômito, enjoo e problemas respiratórios. Além disso, os componentes tóxicos do óleo podem ter efeitos cancerígeno, causar danos ao sistema imune, desregulações no sistema endócrino e efeitos neurotóxicos.

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