Como botas de caubói estão financiando a pesca sustentável de pirarucu na Amazônia

Da Bacia Amazônica às vitrines do Texas, a pele do pirarucu movimenta a indústria da moda, fortalece associações ribeirinhas e ajuda a manter um dos maiores peixes de água doce do mundo sob manejo sustentável.

Botas de caubói da marca Cody James, feitas em couro de pirarucu, disponíveis em uma das lojas da rede Boot Barn, nos Estados Unidos. Crédito: Julie Larsen/Mongabay.
Botas de caubói da marca Cody James, feitas em couro de pirarucu, disponíveis em uma das lojas da rede Boot Barn, nos Estados Unidos. Crédito: Julie Larsen/Mongabay.

Habitante da Bacia Amazônica e um dos maiores peixes de água doce do planeta, o pirarucu (Arapaima gigas) tem uma pele espessa e resistente a predadores como piranhas, mas ao mesmo tempo flexível. O desenho de suas escamas, em formato de diamante, tornou-se um atrativo para a indústria internacional da moda, que encontrou no material uma alternativa exótica e durável ao couro tradicional.

Hoje, o principal mercado da pele de pirarucu é o estado americano do Texas. Botas em estilo country fabricadas nos Estados Unidos e no México abastecem um nicho específico que ajuda a financiar a pesca sustentável conduzida por comunidades tradicionais do Amazonas. Marcas como a Cody James, vendida na rede Boot Barn, oferecem botas e cintos feitos com o couro amazônico.

Embora a carne seja o principal produto do manejo, a pele — que pode pesar ao menos 10 quilos — alcança valor superior, sendo vendida entre R$ 170 e R$ 200. “A venda da pele é fundamental para manter os R$ 10 por quilo pagos ao manejador”, afirma Ana Alice Britto, da Associação dos Produtores Rurais de Carauari (Asproc), maior organização do Médio Juruá, que reúne 800 famílias de 61 comunidades e comercializou 180 toneladas de pirarucu no último ano.

Da ameaça à recuperação da espécie

A exploração comercial do peixe se intensificou a partir da década de 1960, impulsionada por embarcações mais potentes, redes de náilon e fábricas de gelo. O impacto foi severo: em 1975, o pirarucu entrou na lista de espécies ameaçadas da CITES, e sua captura foi proibida no Amazonas entre 1996 e 1999.

O pescador Marco Aurélio Canuto Viana processa um pirarucu em um lago na região de Médio Juruá, no Amazonas. Crédito: AP Photo/Jorge Saenz.
O pescador Marco Aurélio Canuto Viana processa um pirarucu em um lago na região de Médio Juruá, no Amazonas. Crédito: AP Photo/Jorge Saenz.

Nesse período, o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá lançou o primeiro plano de manejo comunitário, combinando ciência e conhecimento tradicional. O modelo se expandiu por unidades de conservação, terras indígenas e acordos de pesca, permitindo a recuperação das populações.

Segundo o IBAMA, hoje há mais de 1,2 milhão de indivíduos no Amazonas, distribuídos em mais de 15 milhões de hectares de áreas reconhecidas para manejo. O sistema autoriza a captura de até 30% dos adultos — com mais de 1,5 metro — preservando os demais 70% para reprodução.

Regras rígidas e esforço coletivo

O manejo respeita o ciclo reprodutivo, que ocorre entre dezembro e maio. Como o macho protege a ninhada, sua captura compromete os filhotes. Anualmente, o IBAMA define cotas com base na contagem realizada por manejadores treinados, que registram os peixes quando sobem à superfície para respirar.

Trabalhadores esticam a pele do pirarucu para secar na fábrica de curtumes Nova Kaeru, no município de Três Rios (RJ). Crédito: AP Photo/Silvia Izquierdo.
Trabalhadores esticam a pele do pirarucu para secar na fábrica de curtumes Nova Kaeru, no município de Três Rios (RJ). Crédito: AP Photo/Silvia Izquierdo.

Em fevereiro, o órgão oficializou o Programa Arapaima, com o objetivo de modernizar autorizações e expandir o modelo a outros estados amazônicos. A proposta inclui parcerias com universidades e uma nova portaria que restringe a pesca exclusivamente a áreas manejadas.

Na prática, o trabalho é exaustivo. Pescadores viajam horas de canoa, enfrentam sol intenso e precisam eviscerar rapidamente os peixes para evitar perdas. Quando a cota é alta, comunidades alugam embarcações refrigeradas por até R$ 20 mil semanais. Sem organização coletiva, dizem especialistas, o manejo é inviável.

Conflitos, fiscalização e desigualdade

Além do desgaste físico, há riscos. Durante a seca, lagos ficam mais vulneráveis à pesca ilegal. Comunidades patrulham as áreas dia e noite, frequentemente desarmadas, enquanto invasores podem estar armados. A concorrência ilegal também derruba preços, prejudicando quem segue as regras.

Na Bacia do Solimões, cerca de 70% da produção manejada do estado se concentra. Ainda assim, a pesca sustentável representa parcela pequena do total comercializado. Cada pescador ganha entre R$ 600 e R$ 4 mil por temporada — valor considerado baixo diante do papel que exercem na conservação.

Na ponta da cadeia, a maior produtora nacional de couro de pirarucu é a Nova Kaeru, que processa as peles no interior do Rio de Janeiro com técnicas livres de cromo. A marca Osklen mantém há 16 anos produtos com o material, como tênis e bolsas de alto valor agregado.

Enquanto o mercado de luxo amplia margens com o discurso da sustentabilidade, manejadores reivindicam maior apoio público e melhor distribuição de renda. Para especialistas, o pirarucu simboliza a bioeconomia amazônica: um recurso da floresta que, quando valorizado, pode conservar ecossistemas e sustentar comunidades tradicionais.

Referências da notícia

Mongabay. Como botas de caubói estão financiando a pesca sustentável de pirarucu na Amazônia. 2026