Como botas de caubói estão financiando a pesca sustentável de pirarucu na Amazônia
Da Bacia Amazônica às vitrines do Texas, a pele do pirarucu movimenta a indústria da moda, fortalece associações ribeirinhas e ajuda a manter um dos maiores peixes de água doce do mundo sob manejo sustentável.

Habitante da Bacia Amazônica e um dos maiores peixes de água doce do planeta, o pirarucu (Arapaima gigas) tem uma pele espessa e resistente a predadores como piranhas, mas ao mesmo tempo flexível. O desenho de suas escamas, em formato de diamante, tornou-se um atrativo para a indústria internacional da moda, que encontrou no material uma alternativa exótica e durável ao couro tradicional.
Hoje, o principal mercado da pele de pirarucu é o estado americano do Texas. Botas em estilo country fabricadas nos Estados Unidos e no México abastecem um nicho específico que ajuda a financiar a pesca sustentável conduzida por comunidades tradicionais do Amazonas. Marcas como a Cody James, vendida na rede Boot Barn, oferecem botas e cintos feitos com o couro amazônico.
Embora a carne seja o principal produto do manejo, a pele — que pode pesar ao menos 10 quilos — alcança valor superior, sendo vendida entre R$ 170 e R$ 200. “A venda da pele é fundamental para manter os R$ 10 por quilo pagos ao manejador”, afirma Ana Alice Britto, da Associação dos Produtores Rurais de Carauari (Asproc), maior organização do Médio Juruá, que reúne 800 famílias de 61 comunidades e comercializou 180 toneladas de pirarucu no último ano.
Da ameaça à recuperação da espécie
A exploração comercial do peixe se intensificou a partir da década de 1960, impulsionada por embarcações mais potentes, redes de náilon e fábricas de gelo. O impacto foi severo: em 1975, o pirarucu entrou na lista de espécies ameaçadas da CITES, e sua captura foi proibida no Amazonas entre 1996 e 1999.

Nesse período, o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá lançou o primeiro plano de manejo comunitário, combinando ciência e conhecimento tradicional. O modelo se expandiu por unidades de conservação, terras indígenas e acordos de pesca, permitindo a recuperação das populações.
Segundo o IBAMA, hoje há mais de 1,2 milhão de indivíduos no Amazonas, distribuídos em mais de 15 milhões de hectares de áreas reconhecidas para manejo. O sistema autoriza a captura de até 30% dos adultos — com mais de 1,5 metro — preservando os demais 70% para reprodução.
Regras rígidas e esforço coletivo
O manejo respeita o ciclo reprodutivo, que ocorre entre dezembro e maio. Como o macho protege a ninhada, sua captura compromete os filhotes. Anualmente, o IBAMA define cotas com base na contagem realizada por manejadores treinados, que registram os peixes quando sobem à superfície para respirar.

Em fevereiro, o órgão oficializou o Programa Arapaima, com o objetivo de modernizar autorizações e expandir o modelo a outros estados amazônicos. A proposta inclui parcerias com universidades e uma nova portaria que restringe a pesca exclusivamente a áreas manejadas.
Na prática, o trabalho é exaustivo. Pescadores viajam horas de canoa, enfrentam sol intenso e precisam eviscerar rapidamente os peixes para evitar perdas. Quando a cota é alta, comunidades alugam embarcações refrigeradas por até R$ 20 mil semanais. Sem organização coletiva, dizem especialistas, o manejo é inviável.
Conflitos, fiscalização e desigualdade
Além do desgaste físico, há riscos. Durante a seca, lagos ficam mais vulneráveis à pesca ilegal. Comunidades patrulham as áreas dia e noite, frequentemente desarmadas, enquanto invasores podem estar armados. A concorrência ilegal também derruba preços, prejudicando quem segue as regras.
Na Bacia do Solimões, cerca de 70% da produção manejada do estado se concentra. Ainda assim, a pesca sustentável representa parcela pequena do total comercializado. Cada pescador ganha entre R$ 600 e R$ 4 mil por temporada — valor considerado baixo diante do papel que exercem na conservação.
Na ponta da cadeia, a maior produtora nacional de couro de pirarucu é a Nova Kaeru, que processa as peles no interior do Rio de Janeiro com técnicas livres de cromo. A marca Osklen mantém há 16 anos produtos com o material, como tênis e bolsas de alto valor agregado.
Enquanto o mercado de luxo amplia margens com o discurso da sustentabilidade, manejadores reivindicam maior apoio público e melhor distribuição de renda. Para especialistas, o pirarucu simboliza a bioeconomia amazônica: um recurso da floresta que, quando valorizado, pode conservar ecossistemas e sustentar comunidades tradicionais.
Referências da notícia
Mongabay. Como botas de caubói estão financiando a pesca sustentável de pirarucu na Amazônia. 2026