Como a atividade humana força animais ameaçados a mudar de rota na Bahia e no Zimbábue
Estudo aponta que a caça humana altera a forma como elefantes e macacos-prego ameaçados se deslocam, aumentando o uso de rotas conhecidas para reduzir riscos em paisagens pressionadas por atividades humanas na Bahia brasileira e no Zimbábue.

A caça humana não afeta apenas o número de animais na natureza. Ela também pode mudar a forma como espécies ameaçadas se deslocam, escolhem caminhos e usam o espaço ao redor. Um novo estudo mostra que elefantes-africanos e macacos-prego-de-peito-amarelo podem passar a repetir rotas conhecidas quando vivem ou circulam perto de áreas associadas à caça, predadores ou presença humana.
A pesquisa analisou dois ambientes muito diferentes: as savanas ao redor de Victoria Falls, no Zimbábue, e a Mata Atlântica da Bahia, no Brasil. Apesar das diferenças entre os ecossistemas e entre as espécies, o resultado aponta para um mesmo fenômeno: em paisagens onde o risco é percebido como maior, os animais parecem recorrer mais a caminhos familiares, como se transformassem a memória do território em uma estratégia de segurança.
Rotas conhecidas viram estratégia de sobrevivência
No estudo, os pesquisadores observaram o uso de “rotas habituais”, ou seja, caminhos repetidos ao longo do tempo. A ideia é simples: assim como uma pessoa prefere uma rua conhecida para voltar para casa à noite, um animal também pode repetir certos trajetos quando precisa reduzir incertezas no ambiente.

Essa estratégia pode ter uma vantagem importante. Ao seguir um caminho conhecido, o animal gasta menos energia mental decidindo para onde ir e pode ficar mais atento a sinais de perigo, como sons, cheiros, presença de pessoas ou marcas de predadores. Em áreas de risco, isso pode significar:
- menor necessidade de explorar caminhos desconhecidos;
- maior atenção aos sinais de ameaça ao redor;
- uso de trechos já memorizados como mais seguros;
- menor liberdade para buscar alimento em outras áreas.
Elefantes usam caminhos diferentes conforme o habitat
No Zimbábue, o estudo acompanhou dez elefantes machos adultos por meio de dados de GPS. Os pesquisadores compararam as rotas usadas pelos animais em diferentes tipos de habitat, como áreas com água, campos, matagais, florestas, áreas agrícolas e zonas urbanas. O objetivo era entender se a presença de caça alterava a frequência com que os elefantes repetiam seus caminhos.

Os resultados indicaram que o efeito da caça não é igual em todos os ambientes. Em áreas onde a caça estava presente, os elefantes aumentaram o uso de rotas habituais em habitats como florestas, matagais, campos, áreas agrícolas e trechos urbanos.
Isso sugere que, em paisagens fragmentadas, os animais podem usar corredores de vegetação, caminhos entre áreas agrícolas ou até redes urbanas como parte de uma navegação mais previsível.
Na Bahia, o risco também reorganiza o caminho dos macacos
Na Reserva Biológica de Una, no sul da Bahia, o estudo analisou um grupo de macacos-prego-de-peito-amarelo, espécie criticamente ameaçada e associada à Mata Atlântica. A equipe observou a relação entre as rotas habituais e locais com indícios de caça humana, presença de predadores terrestres e comportamentos silenciosos do grupo.
Os macacos aumentaram o uso de rotas habituais quando estavam próximos de áreas com evidência de caça, locais onde se deslocavam em silêncio e pontos associados a predadores terrestres. Esse resultado é importante porque mostra que a pressão humana pode afetar não apenas onde os animais vivem, mas também como eles se movimentam dentro da própria área de vida.
Referência da notícia
Hunting by humans affects the navigation of two endangered mammals in Zimbabwe and Brazil. 6 de junho, 2026. Presotto, A., Karidozo, M., Suscke, P. et al.
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