Ceará conclui etapas decisivas do rio artificial que levará água a milhões de pessoas no sertão

Com o avanço das obras do Cinturão das Águas, cerca de 5 milhões de cearenses aguardam o fim da insegurança hídrica através da integração com o Rio São Francisco.

Utilizando túneis e sifões inovadores, o novo sistema hídrico do Ceará promete perenizar rios e assegurar o desenvolvimento econômico da região. Foto: Governo do Ceará
Utilizando túneis e sifões inovadores, o novo sistema hídrico do Ceará promete perenizar rios e assegurar o desenvolvimento econômico da região. Foto: Governo do Ceará

No coração do semiárido brasileiro, uma transformação geográfica está redefinindo a luta histórica contra a escassez de água. O estado do Ceará entrou na fase decisiva de implementação do Cinturão das Águas (CAC), uma infraestrutura que desafia a aridez da região. Frequentemente descrita como um “rio artificial”, a obra se estende por 145,3 quilômetros e foi projetada para conectar a fartura do Rio São Francisco às bacias hidrográficas que abastecem milhões de cearenses.

Mais do que concreto e canais, o projeto representa a materialização da engenharia moderna aplicada à sobrevivência e ao desenvolvimento econômico. Diferente de soluções convencionais que dependem excessivamente de máquinas e energia elétrica, o Trecho 1 do CAC se destaca pela inteligência de seu desenho.

O sistema utiliza a própria topografia do terreno para transportar a água por gravidade, partindo da Barragem de Jati até o Rio Cariús, no município de Nova Olinda. Essa estratégia elimina a necessidade de estações de bombeamento de alto custo, garantindo que o recurso hídrico flua de maneira contínua e sustentável. A obra não é apenas uma resposta imediata à sede, mas uma reconfiguração permanente da malha hídrica do Nordeste setentrional.

Engenharia de precisão usa a gravidade a favor da água

A complexidade técnica por trás desse empreendimento vai muito além da simples escavação de valas. Para vencer o relevo acidentado do sertão sem depender de bombas elétricas, os engenheiros recorreram a uma combinação sofisticada de túneis, canais a céu aberto e sifões invertidos. Estas estruturas permitem que a água atravesse depressões geográficas e leitos de rios secos, mantendo a pressão e o fluxo constantes.

Trecho 1 do Cinturão das Águas atinge marco histórico e prepara Ceará para nova era hídrica. Foto: Governo do Ceará
Trecho 1 do Cinturão das Águas atinge marco histórico e prepara Ceará para nova era hídrica. Foto: Governo do Ceará

O resultado é um sistema capaz de manter uma vazão de 30 metros cúbicos por segundo, assegurando o abastecimento mesmo nos períodos de estiagem severa. Além da eficiência hidráulica, a opção pelo escoamento gravitacional traz uma robustez operacional inédita. Ao reduzir a dependência de componentes mecânicos sujeitos a falhas ou ao consumo elevado de energia, o Estado do Ceará blinda seu sistema de abastecimento contra crises energéticas e altos custos de manutenção.

A água captada no Eixo Norte da transposição do São Francisco passa a integrar um ciclo virtuoso, onde a eficiência energética caminha lado a lado com a segurança hídrica, permitindo que o recurso chegue aonde a rede de drenagem natural não conseguiu suprir a demanda da civilização moderna.

Impacto direto para milhões de habitantes no Ceará

O alcance social e econômico do Cinturão das Águas transcende a engenharia. Em sua fase inicial, a infraestrutura beneficia diretamente mais de 500.000 pessoas nas regiões do Cariri e Alto Jaguaribe, zonas historicamente vulneráveis a ciclos de seca prolongados. Contudo, a visão estratégica do projeto é ainda mais ampla.

Projeto conecta Barragem de Jati a reservatórios estratégicos e beneficia 5 milhões de pessoas. Foto: Ilustração
Projeto conecta Barragem de Jati a reservatórios estratégicos e beneficia 5 milhões de pessoas. Foto: Ilustração

Ao atuar como uma artéria vital que alimenta os grandes reservatórios do estado — como o Orós e o Castanhão —, o sistema tem potencial para impactar positivamente a vida de aproximadamente 5 milhões de habitantes, incluindo a densa população da Região Metropolitana de Fortaleza. Nesse cenário, a regularidade na oferta de água transforma o perfil de risco para investimentos na região. Setores como a fruticultura irrigada e o futuro Hub de Hidrogênio Verde no Porto do Pecém dependem dessa previsibilidade para operar.

A obra, portanto, funciona como um motor de competitividade, garantindo que o Ceará possua uma "malha fina" de distribuição que imunize a economia local contra as flutuações do clima. Com a previsão de conclusão total do sistema avançando durante o ano de 2026, a expectativa é que a soberania hídrica deixe de ser uma promessa para se tornar uma realidade palpável.

Status atual das obras e os próximos passos

Para viabilizar a construção em um terreno tão desafiador, a execução do Trecho 1 foi fragmentada em cinco lotes distintos. Os lotes 1, 2 e 5 já estão com suas seções hidráulicas concluídas e isso significa que cerca de 80 km de estruturas operacionais, incluindo os complexos sistemas de túneis e canais, estão prontos para cumprir sua função.

Esses trechos finalizados servem como uma prova de conceito da engenharia aplicada, demonstrando a viabilidade de transportar volumes massivos de água através do sertão. Enquanto os lotes 3 e 4 seguem em ritmo acelerado de execução, o foco começa a se voltar para a integração total do sistema.

A conexão entre a barragem de Jati e as bacias receptoras, prepara o terreno para que o "Velho Chico" perenize rios intermitentes e recarregue açudes estratégicos. A conclusão dessas etapas marca o fim da dependência exclusiva das chuvas e o início de uma nova era de gestão de recursos hídricos, onde a intervenção humana corrige falhas naturais de distribuição para proteger o futuro de gerações.

Referências da notícia

O Brasil decidiu criar um rio onde a natureza falhou: a obra faraônica de 145 km para vencer a seca eterna. 13 de fevereiro, 2026.