Brasileiros ganham prêmio internacional após 40 mil ‘pisadas’ em jararacas

Estudo com 116 serpentes investigou como região do corpo, idade, sexo e temperatura influenciam botes defensivos; pesquisa recebeu Ig Nobel de Biologia, mas artigo científico foi posteriormente retratado pela revista.

Estudo investigou como fatores influenciam as chances de picada – mas o artigo foi retirado do ar após questionamentos éticos do experimento. Crédito: RafaelMenegucci/Wikimedia Commons
Estudo investigou como fatores influenciam as chances de picada – mas o artigo foi retirado do ar após questionamentos éticos do experimento. Crédito: RafaelMenegucci/Wikimedia Commons

O que faz uma jararaca decidir dar o bote? A pergunta levou pesquisadores brasileiros a realizar milhares de interações controladas com 116 serpentes da espécie Bothrops jararaca. O experimento buscou identificar quais fatores tornam uma reação defensiva mais provável e acaba de receber o Ig Nobel de Biologia de 2026.

Conhecido por premiar pesquisas que “primeiro fazem rir e depois pensar”, o Ig Nobel chamou atenção para um método pouco convencional. Durante os testes, um pesquisador usando uma bota de proteção simulou diferentes formas de aproximação e contato com as cobras, em um conjunto de experimentos que ficou conhecido pelas cerca de 40 mil “pisadas” realizadas.

Publicado originalmente em 2024 na revista Scientific Reports, o estudo avaliou características como idade e sexo dos animais, temperatura ambiente e região do corpo estimulada. Em fevereiro de 2025, porém, o artigo foi retratado pela revista após questionamentos sobre a aprovação ética de parte dos procedimentos. Os autores discordaram da decisão e sustentaram que as questões apontadas não comprometiam os resultados científicos.

Cabeça é região com maior chance de provocar bote

Nos experimentos, cada jararaca era colocada em um ambiente controlado e tinha até 15 minutos para se habituar ao local. Em seguida, o pesquisador aproximava a bota a cerca de cinco centímetros do animal ou realizava um contato leve. Os estímulos eram direcionados à cabeça, ao meio do corpo e à cauda.

A região estimulada apresentou diferenças importantes. Quando o contato ocorria próximo à cabeça, a probabilidade de uma picada defensiva chegava a aproximadamente 44%. O índice diminuía para 20% no meio do corpo e para 11% quando o estímulo era realizado na cauda.

Segundo os pesquisadores, uma possível explicação é que movimentos próximos à cabeça sejam percebidos como uma ameaça maior. Os resultados ajudam a compreender que o bote não seria uma resposta automática à presença humana, mas um comportamento influenciado pelo tipo e pela intensidade da interação.

Idade, sexo e temperatura influenciam reação

A idade das serpentes também apareceu como um fator relevante. Nos experimentos envolvendo contato físico, as jararacas recém-nascidas apresentaram probabilidade de picar 2,17 vezes maior do que os animais adultos. Entre todos os grupos analisados, as fêmeas recém-nascidas demonstraram a maior tendência ao bote.

Um dos pesquisadores brasileiros que recebeu o Ig Nobel foi afastado do projeto após sofrer quatro picadas de serpentes. Crédito: Diuvlgação Exame
Um dos pesquisadores brasileiros que recebeu o Ig Nobel foi afastado do projeto após sofrer quatro picadas de serpentes. Crédito: Diuvlgação Exame

A temperatura, por sua vez, produziu efeitos diferentes de acordo com o sexo dos animais. Entre as fêmeas, temperaturas mais elevadas foram associadas a uma maior probabilidade de picada. Entre os machos, durante o período noturno, os pesquisadores identificaram comportamento inverso.

Além dos testes realizados em ambiente controlado, a equipe comparou os resultados com registros de acidentes envolvendo serpentes no estado de São Paulo. A análise encontrou diferenças entre áreas do litoral e do planalto e identificou uma associação entre temperaturas médias anuais mais altas e maior ocorrência de acidentes.

Retratação exige cautela na interpretação

Os próprios autores ressaltaram, entretanto, que essa associação não permite concluir que temperaturas maiores provoquem diretamente mais acidentes. Outros elementos, como urbanização, circulação de pessoas e abundância de serpentes, podem interferir na quantidade de ocorrências registradas em cada região.

O reconhecimento internacional chega, portanto, acompanhado de uma controvérsia científica. Segundo a Scientific Reports, a aprovação ética concedida à pesquisa não contemplava o uso de serpentes recém-nascidas nem um dos procedimentos adotados nos experimentos, razão que levou a revista a retratar o artigo em 2025.

Os pesquisadores contestaram a medida e defenderam a validade científica dos dados obtidos. Com o Ig Nobel de 2026, o curioso experimento brasileiro volta aos holofotes, agora combinando reconhecimento internacional e debate sobre os limites éticos da pesquisa científica. Por causa da retratação, seus resultados devem ser considerados com cautela.

Referência da notícia

Superinteressante. (2026). Brasileiros ganham o Ig Nobel 2026 após pisarem 40 mil vezes em jararacas.