Crânio revela que tigre da Tasmânia era muito diferente dos lobos

Nova análise mostra que o tilacino possuía adaptações únicas para capturar pequenas presas e reforça que o animal não era simplesmente uma versão marsupial dos grandes predadores europeus.

Análises de crânios mostram que os tilacinos eram mais parecidos com cangurus do que com lobos. Crédito: Popperfoto/Getty Images via CNN Newsource
Análises de crânios mostram que os tilacinos eram mais parecidos com cangurus do que com lobos. Crédito: Popperfoto/Getty Images via CNN Newsource

Caçadores exterminaram os tilacinos, conhecidos como tigres da Tasmânia, na Austrália há quase um século. Agora, uma nova análise de seus crânios revela que esses animais eram muito diferentes dos lobos com os quais foram comparados durante décadas.

A semelhança física com os lobos contribuiu para a criação de um mito entre colonizadores britânicos na Tasmânia. Por parecerem grandes predadores, os tilacinos foram considerados uma ameaça ao gado e passaram a ser perseguidos, embora estudos indiquem que sua anatomia era mais adequada à captura de animais pequenos.

Segundo pesquisa publicada na revista Nature Communications, características do crânio e da mandíbula sugerem que os tilacinos tinham adaptações especializadas para caçar presas como coelhos, bandicoots e outros pequenos marsupiais. O resultado ajuda a explicar por que a espécie provavelmente não representava a ameaça ao rebanho que lhe foi atribuída.

Crânio grande escondia uma anatomia incomum

A principal autora do estudo, Vera Weisbecker, professora de biologia evolutiva da Universidade Flinders, percebeu durante uma análise que os crânios dos tilacinos apresentavam dimensões surpreendentemente grandes. A princípio, ela chegou a suspeitar que houvesse algum erro nas medições.

Um crânio de tigre-da-Tasmânia. Crédito: Colossal Biosciences
Um crânio de tigre-da-Tasmânia. Crédito: Colossal Biosciences

Os pesquisadores compararam crânios de tilacinos, raposas e lobos e descobriram que, apesar de seu tamanho, a estrutura do animal não correspondia à de um grande predador. O focinho era longo e fino, mais próximo do formato observado em raposas e chacais do que do focinho robusto de um lobo-cinzento.

Outro estudo, realizado em 2020, já havia indicado que os tilacinos eram menores do que se imaginava anteriormente. A estimativa média passou de cerca de 29,5 quilos para aproximadamente 17 quilos, colocando os animais mais próximos do porte de grandes coiotes do que de lobos.

A combinação entre um crânio grande, mandíbula superior alongada e focinho comprido teria permitido ao tilacino realizar mordidas rápidas e poderosas. De acordo com os pesquisadores, o tamanho do crânio ajudava a suportar as forças geradas durante esses movimentos.

Espécie extinta aparenta mais semelhanças com crocodilos

Ao comparar a alimentação dos tilacinos com a de mamíferos predadores atuais, os cientistas não encontraram um equivalente direto. Algumas características, porém, apresentavam semelhanças funcionais com animais que capturam presas na água, como determinados crocodilos.

Para Love Dalén, professor de genômica evolutiva da Universidade de Estocolmo, a descoberta mostra como animais podem apresentar aparência semelhante e, ainda assim, possuir estratégias de sobrevivência completamente diferentes. No caso do tilacino, a anatomia aponta para um caçador especializado em presas menores e ágeis.

O último tilacino conhecido morreu em cativeiro, em 1936, no Zoológico de Beaumaris, na Tasmânia. A espécie já havia desaparecido de outras regiões da Austrália cerca de 2 mil anos antes e sobreviveu exclusivamente na ilha até sua extinção.

Desextinção pode ajudar perda de biodiversidade australiana

Atualmente, o animal ocupa papel central em pesquisas de “desextinção”. O professor Andrew Pask, da Universidade de Melbourne, trabalha com a empresa de biotecnologia Colossal Biosciences em técnicas que combinam genética, DNA antigo e reprodução artificial para tentar recriar características do tilacino.

Para Weisbecker, entretanto, o maior valor desses esforços pode estar no conhecimento produzido durante o processo. As pesquisas podem ampliar a compreensão sobre genética da conservação e reprodução, além de chamar atenção para a perda de biodiversidade na Austrália, país que enfrenta uma grave ameaça às espécies de marsupiais.

Referência da notícia

R7. (2026). Crânio do tigre da Tasmânia mostra que ele era diferente de qualquer mamífero vivo.