Belém, a capital com mais dias de calor extremo do Brasil: 'Não tem como dormir, te degrada muito'

Belém enfrenta recordes de calor extremo que afetam especialmente jovens das periferias. Desigualdade climática, perda de vegetação e impactos no cotidiano revelam uma cidade em transformação e em busca de soluções urgentes

Bairro do Jurunas, em Belém, tem poucas árvores
Bairro do Jurunas, em Belém, tem poucas árvores. Crédito: Victor Serrano/BBC

A rotina de Lene, mãe de João Victor da Silva, começava sob o sol escaldante de Belém. O trajeto diário entre a ilha de Caratateua e o centro da capital paraense era marcado por quase duas horas de exposição intensa ao calor. Foi nesse cotidiano que surgiram os primeiros sinais de um câncer de pele que acabaria tirando sua vida.

Hoje, aos 16 anos, João mal lembra da voz da mãe, mas carrega sua história como motivação para atuar como ativista climático. Conhecido como “João do Clima”, ele participou da COP30, realizada na cidade, e denuncia os impactos do aquecimento global sobre as populações mais vulneráveis. “Ela faleceu diante das desigualdades sociais e das mudanças climáticas”, afirma.

Belém é um exemplo evidente do que pesquisadores chamam de “desigualdade climática”: como a crise ambiental afeta de formas distintas quem vive em áreas arborizadas ou em bairros sem sombra.

Calor extremo e desigualdade lado a lado

Segundo o Censo do IBGE de 2022, Belém é a sexta capital brasileira com mais moradores vivendo em ruas sem nenhuma árvore — um contraste marcante para quem conhece as áreas centrais ricas, com túneis de mangueiras e calçadas sombreadas.

No bairro do Jurunas, um dos mais quentes da cidade, o adolescente Ronald Monteiro, de 15 anos, descreve o calor que começa antes do meio-dia como “uma máquina de bater açaí girando na gente”. Ao voltar da escola, ele ajuda o pai na extração da polpa de açaí, mas o descanso da tarde tornou-se impossível. “É um calor insuportável. Não tem como dormir. O calor te degrada muito”, conta.

Os números confirmam a sensação: em 2023, Belém registrou 212 dias de extremos de calor, segundo o Cemaden — mais que qualquer outra capital brasileira. Pesquisadores da UFPA mostram que, somente nos últimos quatro anos, a cidade teve mais dias acima de 35,5ºC do que nas seis décadas anteriores somadas.

Floresta diminuindo, temperatura subindo

A perda de cobertura vegetal contribui para esse cenário. Entre 1985 e 2023, Belém perdeu cerca de 20% de suas áreas de floresta. “Belém sempre foi quente, mas agora está muito mais”, afirma o meteorologista Everaldo de Souza, da UFPA. A redução da vegetação e as mudanças no bioma amazônico dificultam a regulação natural da temperatura.

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João Victor da Silva se viu obrigado a virar 'João do Clima' em Belém. Crédito: Victor Serrano/BBC

Esse calor afeta diretamente crianças e adolescentes, especialmente durante o trajeto escolar e nas atividades ao ar livre. João, por exemplo, estudou até os 15 anos em uma escola sem climatização. “A gente está na mesma tempestade em barcos diferentes”, diz ele, ao comparar a realidade de alunos da periferia com a de escolas privadas climatizadas.

A luta de João e os impactos no dia a dia

No bairro onde vive, em São João do Outeiro, João liderou a transformação de uma praça tomada por lixo em uma área verde com nascente preservada. Hoje, ele defende políticas como pavimentação ecológica, plantio de árvores e educação ambiental nas periferias. Apesar do orgulho, lamenta perder a adolescência: “Queria ser mais adolescente e menos ativista, mas acho que não é possível agora.”

Enquanto isso, Ronald enfrenta outro reflexo da crise climática: a piora da qualidade e o aumento do preço do açaí, fruto essencial da economia e alimentação paraense. Chuvas irregulares e mais intensas afetam a frutificação dos açaizeiros. Em outubro de 2025, o litro do açaí chegou a R$ 28 nas feiras, contra R$ 18,40 no ano anterior.

Esperança apesar do calor insuportável

Sem conseguir dormir à tarde e exausto para suas atividades, Ronald teme pelo futuro, mas mantém a esperança de ser ouvido. Ele sabe que muitos participantes da COP30 não viram o calor do Jurunas, mas acredita na força da juventude amazônica.

“Dizem que a gente é o futuro do Brasil. Então, temos que ser ouvidos”, afirma. “Tenho esperança que melhore bastante.”

Referências da notícia

BBC Brasil. A capital com mais dias de calor extremo do Brasil: 'Não tem como dormir, te degrada muito'. 2025