El Niño deve ganhar força e pode atingir patamar raro durante o inverno

As anomalias de temperatura da superfície do mar na região do Pacífico Equatorial vem subindo muito rápido. Nas próximas semanas, a Oscilação Madden-Julian deve interagir construtivamente, de forma a intensificar ainda mais o aquecimento.

A anomalia diária de temperatura da superfície do mar vem ultrapassando +3°C desde a costa da América do Sul até a região central do Oceano Pacífico. Na imagem, as anomalias de 17 de junho de 2026. Créditos: NASA Overview.
A anomalia diária de temperatura da superfície do mar vem ultrapassando +3°C desde a costa da América do Sul até a região central do Oceano Pacífico. Na imagem, as anomalias de 17 de junho de 2026. Créditos: NASA Overview.

As águas do Pacífico Equatorial continuam aquecendo rapidamente e os indicadores mais recentes sugerem que o El Niño pode ganhar ainda mais força nas próximas semanas. Dados divulgados pela NOAA esta semana mostram que as temperaturas do oceano já atingem valores elevados para esta época do ano, enquanto previsões atmosféricas indicam condições favoráveis para a continuidade do aquecimento durante o restante de junho e o início de julho. O resultado do contínuo aquecimento e reforço construtivo de fenômenos de outras escalas pode resultar em um El Niño de categoria muito forte ainda durante o inverno do Hemisfério Sul. Confira os detalhes.

Pacífico já apresenta aquecimento incomum para o mês de junho

Os dados mais recentes do Centro de Previsão Climática (CPC) da NOAA mostram que o aquecimento do Pacífico Equatorial segue se intensificando. Na atualização semanal divulgada na segunda-feira (16), a região Niño 3.4 registrou anomalia relativa de aproximadamente +0,9°C em relação à média climatológica, enquanto a costa do Peru (Niño 1+2) já ultrapassa 2°C.

Já as temperaturas absolutas da superfície do mar alcançaram 1,5°C acima da média na região de monitoramento Niño 3.4, e a costa do Peru e do Equador se aproxima de 3°C.

Embora valores semanais não representem necessariamente a intensidade final do evento, eles fornecem um retrato das condições atuais do oceano.

Resumo do boletim semanal da NOAA mostrando as anomalias de temperatura da superfície do mar e a evolução térmica da camada subsuperficial do Pacífico Equatorial. Créditos: CPC/NOAA.
Resumo do boletim semanal da NOAA mostrando as anomalias de temperatura da superfície do mar e a evolução térmica da camada subsuperficial do Pacífico Equatorial. Créditos: CPC/NOAA.

Para esta época do ano, as temperaturas observadas já são bastante elevadas e reforçam o cenário de desenvolvimento acelerado do fenômeno. Além disso, os dados de subsuperfície continuam indicando a presença de uma extensa massa de água muito quente abaixo da superfície, com anomalias superiores a 6°C, um combustível importante para a manutenção do aquecimento nos próximos meses.

MJO pode favorecer novo salto de aquecimento no início de julho

Além das condições oceânicas já favoráveis, a atmosfera também pode contribuir para uma intensificação adicional do fenômeno nas próximas semanas. As previsões da Oscilação Madden-Julian (MJO) indicam que sua fase ativa deverá se posicionar sobre o Pacífico Oeste entre o fim de junho e o início de julho.

Esse padrão favorece o enfraquecimento dos ventos alísios sobre o Pacífico Equatorial. Com ventos mais fracos, diminui a ressurgência de águas frias e aumenta a propagação de ondas oceânicas quentes em direção ao leste do oceano, criando condições favoráveis para novas elevações da temperatura da superfície do mar.

Observações (esquerda) e previsões (direita) da atividade da MJO até meados de julho de 2026. Fonte: NCICS/CFS.
Observações (esquerda) e previsões (direita) da atividade da MJO até meados de julho de 2026. Fonte: NCICS/CFS.

A atuação da MJO também favorece o desenvolvimento de áreas de convecção sobre o Pacífico Central, fortalecendo gradualmente a resposta atmosférica ao aquecimento oceânico. Esse processo, conhecido como acoplamento oceano-atmosfera, é fundamental para a consolidação de eventos intensos de El Niño.

Embora oscilações intrassazonais possam temporariamente acelerar ou desacelerar a evolução do fenômeno, o cenário atual permanece favorável para a continuidade do aquecimento do Pacífico Equatorial durante as próximas semanas.

O que os modelos projetam para os próximos meses?

Esse cenário é consistente com as projeções dos principais modelos climáticos. A última pluma do Instituto Internacional de Pesquisa para Clima e Sociedade (IRI), baseada em simulações iniciadas em maio, indica anomalias superiores a 2°C na região Niño 3.4 entre o fim do inverno e o início da primavera do Hemisfério Sul, com valores elevados persistindo até o início de 2027.

Previsão da pluma de modelos do IRI para o El Niño. Créditos: Adaptado de IRI.
Previsão da pluma de modelos do IRI para o El Niño. Créditos: Adaptado de IRI.

Embora essa rodada ainda tenha sido produzida durante a chamada barreira da previsibilidade (período compreendido entre março e maio em que as previsões do ENOS apresentam maior incerteza), os sinais atuais observados no oceano e na atmosfera seguem compatíveis com esse cenário.

A próxima atualização da pluma será divulgada na segunda-feira (22). e deverá incorporar simulações iniciadas em junho, já fora da barreira da previsibilidade. Caso acompanhe a tendência observada em outros sistemas de previsão sazonal, como o ECMWF e o conjunto multimodelo do Copernicus (C3S), a expectativa é de manutenção do cenário de um El Niño muito forte já no inverno.