Granizo no Sul: lavouras destruídas e o desafio de se proteger

Lavouras devastadas, casas destelhadas e carros amassados: os temporais de granizo que atingiram o Sul do Brasil acendem o alerta para um clima mais extremo e a necessidade de novas estratégias de proteção no campo rural brasileiro.

Nas últimas horas, imagens de lavouras brancas de gelo, telhados furados e carros amassados tomaram as redes sociais no Sul do Brasil. Em Petrolândia, no Alto Vale do Itajaí (SC), uma tempestade de granizo na tarde de sábado (22) atingiu praticamente todo o município, deixando moradores sem energia e agricultores com prejuízos importantes em fumo, cebola e outras culturas

O cenário não foi isolado. Outras cidades do Vale do Itajaí e do Oeste catarinense, como Ibirama e Cunha Porã, também relataram destelhamentos, danos estruturais e decretos de emergência

No Rio Grande do Sul, Erechim virou símbolo de “granizo gigante”, com pedras enormes destruindo casas, escolas e áreas rurais e afetando quase 18 mil pessoas, segundo a prefeitura. Para quem vive do campo, a pergunta é inevitável: por que isso está acontecendo com tanta força, e o que dá para fazer?

Do Alto Vale ao Norte Gaúcho: o rastro dos temporais

No Alto Vale do Itajaí, a tempestade que caiu em Petrolândia e municípios vizinhos combinou chuva intensa, rajadas de vento e granizo suficiente para cobrir o chão em algumas comunidades. Relatos de agricultores dão conta de lavouras inteiras de fumo e hortaliças “picadas” pelas pedras de gelo, além de quedas de energia que dificultaram até o abastecimento de caminhões-pipa para ações emergenciais.

Granizo, rural
O granizo atinge plantações, cercas e galpões, impactando diretamente a rotina das famílias rurais.

Mais ao norte, em Erechim (RS), o impacto foi ainda mais dramático. Uma tempestade severa com granizo de grande porte levou o município a decretar situação de emergência: casas, unidades de saúde e edificações rurais foram destruídas ou seriamente danificadas, com dezenas de feridos e milhares de pessoas diretamente afetadas.

Como nasce uma tempestade de granizo (e por que está tão frequente?)

Do ponto de vista meteorológico, não há mistério “sobrenatural”: a Defesa Civil de Santa Catarina explica que, no sábado (22), uma frente fria avançava pelo litoral, encontrando muito calor, umidade elevada e ventos fortes em diferentes níveis da atmosfera.

Essa combinação favoreceu tempestades do tipo supercélula, nuvens Cumulonimbus extremamente vigorosas, capazes de produzir granizo, rajadas intensas e até microexplosões (downbursts) em alguns pontos.

De forma simplificada, uma tempestade de granizo precisa de alguns ingredientes principais:

  • Calor e umidade: ar quente e úmido sobe com força, alimentando as nuvens de tempestade.
  • Correntes ascendentes muito fortes: o ar sobe tão rápido que mantém as pedras de gelo suspensas, permitindo que cresçam em camadas.
  • Ar frio nas camadas mais altas: favorece a formação de cristais de gelo e o crescimento do granizo.
  • Ventos em diferentes direções com a altura (cisalhamento): organizam a tempestade, aumentando sua duração e severidade.

O debate climático entra quando se observa a sensação de que “tudo ficou mais agressivo”. Ainda não dá para atribuir um episódio específico somente à mudança do clima global, mas o aquecimento da atmosfera tende a aumentar a energia disponível para tempestades severas.

Granizo como lição para o agro brasileiro

Para o produtor rural, cada tempestade dessas é um lembrete incômodo de que o “risco climático” não é teoria, é linha de custo. As tempestades de granizo que atingiram Petrolândia, Erechim e outras regiões de Santa Catarina revelaram fragilidades em lavouras de alto valor, como a maçã na Serra Catarinense, onde episódios sucessivos de granizo em poucos dias aumentaram o receio de perda de safra ainda em fase crítica de desenvolvimento dos pomares.

A discussão agora precisa ir além do lamento. Em algumas cadeias, como frutas e hortaliças, redes anti-granizo e estruturas de proteção já são realidade em parte das propriedades, mas o custo ainda é uma barreira para pequenos produtores.

Seguros rurais que considerem melhor o risco de granizo, o uso de informações agrometeorológicas para ajustar épocas de plantio e a integração entre previsões especializadas (como Inmet e Defesas Civis estaduais) e o dia a dia no campo são caminhos imediatos.

No fim das contas, o “céu que desaba em pedras” não é apenas manchete impactante: é um sinal de que o agro brasileiro terá de investir mais em planejamento climático, proteção física das lavouras e cultura de prevenção.