Como drones estão ajudando a combater incêndios no Brasil
Universidades e empresas paulistas desenvolvem aeronaves inteligentes capazes de detectar focos de fogo, medir gases de efeito estufa e até lançar água e espuma, ampliando a prevenção ambiental.

O uso de drones no combate a incêndios florestais e urbanos tem ganhado força no Brasil, impulsionado por pesquisas acadêmicas e iniciativas empresariais. Aeronaves não tripuladas já são empregadas por órgãos de defesa civil em diversos estados, sobretudo para monitoramento e detecção de focos de calor. Agora, projetos nacionais avançam para ampliar a autonomia, a precisão dos sensores e até a atuação direta contra o fogo.
Na Universidade de São Paulo (USP), no campus de São Carlos, pesquisadores desenvolvem um drone equipado com sensores ambientais e sistemas de inteligência artificial (IA) capazes de medir a concentração de gases de efeito estufa (GEE), como dióxido de carbono (CO₂) e metano (CH₄). O objetivo é monitorar áreas de mata e identificar indícios precoces de incêndio.
Segundo o engenheiro Glauco Caurin, da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC-USP), o equipamento foi concebido para complementar ferramentas já utilizadas, como satélites, torres de observação e aviões tripulados. Diferentemente dos satélites, que registram imagens uma ou duas vezes ao dia, o drone pode ter sua rota e frequência de voo ajustadas conforme o risco de cada área.
Tecnologia nacional aposta em sensores e inteligência artificial
O protótipo desenvolvido com apoio da FAPESP possui quatro motores elétricos e decolagem vertical (VTOL). Sensores ópticos medem temperatura, umidade, gases e material particulado. Um computador de bordo com IA analisa os dados e identifica a possível origem das emissões. A medição do gradiente de CO₂ permite estimar indiretamente a região provável do foco de incêndio.
Os resultados foram apresentados no livro The Future of Electric Aviation and Artificial Intelligence, publicado pela Springer Nature. Uma nova versão do drone está em desenvolvimento e contará com asas para ampliar a eficiência energética e alcançar autonomia de até 90 minutos. Para inspecionar grandes áreas, a estratégia prevê o uso coordenado de uma frota de aeronaves.
Empresas ampliam mercado de drones anti-incêndio
O avanço acadêmico ocorre em paralelo à atuação de empresas paulistas. A Xmobots, fundada por ex-alunos da USP, desenvolveu o modelo Nauru 500C, um drone de grande porte com quatro horas de autonomia e alcance de 60 quilômetros. Equipado com sensores térmicos, câmera óptica e telêmetro, o equipamento é usado no monitoramento ambiental e na detecção de focos de calor.
Segundo a empresa, baseada em dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), os incêndios causaram prejuízos de R$ 14,6 bilhões ao agronegócio entre junho e agosto de 2024. A companhia trabalha agora na incorporação de sensores ambientais e de gases em seus equipamentos.
Outro destaque é a UAVI, sediada em São José dos Campos, que lançou o UAVI100 – Bombeiro. O drone de oito motores pode transportar até 150 quilos e operar conectado a caminhões de bombeiros ou hidrantes, lançando água ou espuma com precisão a até 25 metros de distância.
Combate direto e novos desafios tecnológicos
As primeiras unidades do UAVI100 foram entregues ao Corpo de Bombeiros de Manaus e já participaram de operações reais. O equipamento possui câmera térmica e sistema de realidade virtual que permite ao operador acompanhar a ação em tempo real.

Enquanto drones importados de pequeno porte continuam sendo usados por estados como São Paulo e Mato Grosso do Sul para localizar focos de calor, as soluções nacionais ampliam o escopo de atuação, integrando detecção, análise ambiental e combate direto.
Especialistas, no entanto, apontam desafios. O físico Paulo Artaxo, da USP, destaca que é preciso ampliar o tempo de voo e melhorar a precisão dos sensores para aplicações mais robustas na Amazônia. Ainda assim, o desenvolvimento de tecnologia nacional é visto como passo estratégico para enfrentar incêndios cada vez mais frequentes e intensos no país.
Referências da notícia
Revista Fapesp. Como drones estão ajudando a combater incêndios no Brasil. 2026