Cacau na Amazônia: o “clone certo” pode driblar a vassoura-de-bruxa e render mais chocolate
Pesquisadores da UNESP, Embrapa e universidades amazônicas testaram 25 clones de cacau em Rondônia, na CEPLAC. Alguns produziram mais e sofreram menos com vassoura-de-bruxa, enquanto o desequilíbrio nutricional, especialmente falta de boro, apareceu em todas as plantas.

O cacau voltou ao centro das conversas sobre agricultura sustentável na Amazônia: além de gerar renda, ele se adapta bem a sistemas agroflorestais, com sombra e diversidade de espécies.
Um estudo publicado na Scientific Reports reuniu pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (UNESP), da Embrapa e de universidades da região para entender por que alguns cacaueiros “aguentam o tranco” melhor do que outros. Eles avaliaram 25 clones (tipos selecionados de cacau) cultivados em Rondônia, numa área experimental da CEPLAC, comparando produção de frutos, presença de vassoura-de-bruxa em vagens e o estado nutricional das plantas.
Vassoura-de-bruxa: quando o problema aparece no fruto
A vassoura-de-bruxa é conhecida por deformar ramos e reduzir o vigor do cacaueiro, mas o estudo focou num ponto que pesa direto no bolso: a doença atingindo as vagens. Em ambientes quentes e úmidos, típicos da Amazônia, o fungo encontra condições ideais para se espalhar, e parte da safra pode se perder antes mesmo de virar amêndoa.

O resultado mostrou que a “resistência” não é uma promessa genérica: ela muda muito de clone para clone. Houve material com incidência alta de vassoura-de-bruxa (como o clone EEOP 96) e outros em que não se registrou doença nas vagens durante as avaliações. Na prática, isso significa que escolher o material genético certo pode ser tão importante quanto acertar o manejo.
Nutrientes: o desequilíbrio que trava a produtividade
Além da doença, os autores olharam para a nutrição das plantas com análises foliares, uma espécie de “exame de sangue” do cacaueiro. O ponto central não foi só identificar falta ou excesso, mas medir o quão equilibrado estava o conjunto de nutrientes, porque, no campo, um nutriente fora do lugar pode atrapalhar o aproveitamento de outros.
Ao mesmo tempo, nitrogênio e potássio ficaram acima do ideal nas folhas, sugerindo que adubações “no automático” podem estar reforçando excessos sem corrigir a limitação principal.

Na prática, isso acende um alerta para quatro pontos essenciais no manejo nutricional do cacau:
- Análise de solo e de folha ajudam a separar “falta real” de “excesso mascarado”.
- Boro (e, em alguns casos, cobre e zinco) merece atenção especial na Amazônia.
- Excesso de N e K pode não virar produtividade se o restante estiver desbalanceado.
- Nutrição equilibrada tende a reduzir estresse e melhorar a resposta da planta ao ambiente.
Quem ganha na combinação de genética e manejo
Quando os dados de produtividade, doença e nutrição foram analisados em conjunto, apareceram clones que juntaram as peças do quebra-cabeça: boa produção e baixa incidência de vassoura-de-bruxa nas vagens.
A principal conclusão é que não existe “bala de prata” isolada. A escolha do clone pode reduzir o risco da doença e melhorar o potencial produtivo, mas o solo continua mandando recados: se o boro está faltando e o resto está desequilibrado, a lavoura não chega no teto de produção.
Para uma cacauicultura amazônica mais estável, o caminho passa por material genético adaptado, diagnóstico nutricional regular e adubação mais cirúrgica, menos receita pronta e mais decisão baseada em evidências.
Referência da notícia
Cacao clones modulate pod tolerance to witches’ broom and nutritional imbalances, enhancing cocoa production in the Amazon. 20 de fevereiro, 2026. Traspadini, E.I.F., de Mello Prado, R., Wadt, P.G.S. et al.