Seria possível a Terra ser toda coberta por gelo?

Já imaginou a Terra completamente coberta por gelo? Isso pode ter acontecido repetidas vezes entre 740 e 580 milhões de anos atrás segundo a hipótese Terra Bola de Neve. Esse período de congelamento e descongelamento pode ter relação com o surgimento da vida complexa no nosso planeta.

Carolina Barnez Carolina Barnez 15 Ago. 2019 - 12:55 UTC
A hipótese da Terra Bola de Neve fala que a terra já esteve coberta de gelo repetidas vezes entre 740 e 580 milhões de anos atrás. Créditos: newatlas.com

Já imaginou a Terra coberta de gelo? Nosso planeta já passou por diversos eventos climáticos, mas seria possível que toda superfície do planeta fosse congelada? Pois saiba que alguns cientistas defendem a hipótese da "Terra Bola de Neve", e acreditam que esse cataclismo já aconteceu repetidamente entre 740 a 580 milhões de anos atrás.

A hipótese Terra Bola de Neve

O termo Terra Bola de Neve, criado por Joseph Kirschvink (1992), foi consolidado pela hipótese desenvolvida por Paul Hoffman em 1998, em um artigo para a revista Science. A hipótese é de que a Terra teria passado por ciclos de congelamento, onde toda superfície ficaria coberta por gelo. Isto teria acontecido entre entre 740 e 580 milhões de anos atrás, de forma intercalada com períodos de aquecimento.

A hipótese é sustentada por registros paleomagnéticos em rochas, que mostram que a Terra teve gelo em latitudes tropicais próximas ao equador (até 10º de latitude). No entanto, não existem evidências de que o gelo atingiu o equador. Por isso, grande parte dos cientistas acha impossível um cenário em que a Terra fique 100% coberta por neve, mas acreditam em um congelamento da maior parte da superfície.

Como a temperatura do planeta caiu tanto?

Muito se discute sobre o desencadeador de tal evento. No período em questão, havia intensa atividade vulcânica na Terra, responsável por lançar na atmosfera grandes quantidades de aerossóis, que bloqueiam os raios solares incidentes. Aliado a isso, o supercontinente Rodínea estava em fase de separação, o que aumentou o transporte de umidade para regiões antes secas e acelerou os efeitos de intemperismo em rochas. O intemperismo químico, que decompõe as rochas e minerais da Terra, consome gás carbônico da atmosfera, principalmente quando atua em rochas com minerais silicáticos. Com menos CO2 na atmosfera, há diminuição do efeito estufa, e consequente queda na temperatura média do planeta.

Exemplo de rocha glacial, usadas para as análises de paleomagnetismo. Créditos: Paul Hoffman/Astronomy.com

Além disso, o próprio aumento da área coberta de gelo contribui para a redução de temperatura no planeta, pelo aumento do albedo. O albedo é um parâmetro que mede o quanto uma superfície reflete de radiação eletromagnética (luz). O gelo tem albedo altíssimo, o que significa que reflete a maior parte de radiação incidente, absorvendo pouco calor e contribuindo mais para o resfriamento do ambiente. Segundo a hipótese, esses foram os elementos principais que ocasionaram a Terra Bola de Neve.

Questões em aberto

O mais interessante é que este período turbulento antecede o surgimento da vida complexa na Terra. Após fases de congelamento e aquecimento intercalados houve o surgimento dos primeiros organismos complexos, alguns com esqueletos, possivelmente animais. Existe muitos grupos de pesquisa ao redor do mundo empenhados em entender melhor a Terra Bola de Neve e a explosão de vida que a sucede.

A Terra pode novamente ter sua superfície quase totalmente coberta de gelo? As chances seriam mínimas, já que é necessária uma combinação de vários fatores pouco provável - dentros dos próximos 100 milhões de anos a configuração tectônica atual do planeta dificilmente permitiria tal feito.

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