Paleoprecipitação: revelações do passado sobre a ZCIT

Dados inéditos de paleoprecipitação mostram que a posição da Zona de Convergência Intertropical também é influenciada pela temperatura de superfície do mar do Atlântico Sul. A descoberta traz um novo olhar sobre este cinturão de chuvas, que é fundamental para o abastecimento hídrico do Nordeste.

Carolina Barnez Carolina Barnez 04 Jul. 2019 - 11:42 UTC
A reconstrução do sinal de chuva foi feita através de moléculas contidas nos sedimentos da Lagoa do Boqueirão (Rio Grande do Norte). Créditos: www.scientia.global/Dr. Nathalie Dubois

A dinâmica da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) é fundamental para o regime de chuvas no Nordeste. A posição deste cinturão de chuvas varia latitudinalmente (na direção norte-sul) e tem relação direta com as variabilidades climáticas do Atlântico Norte. No entanto, um estudo publicado recentemente na Nature Scientific Reports mostra de forma inédita que as variações na temperatura de superfície do mar (TSM) do Oceano Atlântico Tropical também exercem influência na expansão e contração da ZCIT.

O trabalho apresentou dados inéditos de paleoprecipitação dos últimos 2.300 anos para o Nordeste brasileiro. A reconstrução do sinal de precipitação (chuva) foi feita através de moléculas contidas nos sedimentos da Lagoa do Boqueirão (Rio Grande do Norte). "Durante o processo de formação do lago, há o transporte e acúmulo de moléculas produzidas na maior parte na cutícula foliar de vegetais superiores, ou seja, das ceras das folhas de árvores", explica Giselle Utida, pesquisadora do Instituto de Geociência da USP.

A cera é composta, entre outros elementos, de água e carbono e as moléculas de hidrogênio contidas nesse composto são provenientes da água da chuva. Com essa premissa, os pesquisadores interpretam o sinal de H obtido no sedimento como representante das variações da chuva e reconstroem o sinal da quantidade de precipitação da região pro passado.

Novas descobertas sobre a ZCIT

"A interpretação mais aceita das variações da ZCIT ao longo do tempo está relacionada a sua migração norte e sul, de acordo com as variações de temperatura da superfície do mar no Hemisfério Norte. Nossos dados mostram que esse não foi o único tipo de variação da ZCIT nos últimos milênios", conta Utida.

Mudanças na temperatura da superfície do mar no Atlântico Tropical Sul (TSA) apresentam correlação positiva (azul mais escuro) com precipitação do Nordeste na região da ZCIT.

Segundo o trabalho, a existência de umidade na localidade estudada mostra que o cinturão de chuva não apresentou migração norte-sul no período de 500 AC a 500 DC, mas sim um aumento da sua área de ocorrência. "Dessa forma, o aumento da precipitação no Nordeste pelas chuvas da ZCIT não obedeceu as variações de temperatura do Hemisfério Norte", complementa Utida. "Apesar de não existirem dados de TSM em alta resolução para essa faixa de tempo no Atlântico Sul, supomos que mudanças na TSM dessa região possam ter afetado a distribuição de chuvas da ZCIT."

"Essa nova interpretação abre as portas para olhar sobre o Atlântico Sul, que até agora recebeu pouca atenção sobre sua ação como forçante paleoclimática nos últimos milênio, justamente pela pouca quantidade de dados em toda a bacia". O estudo faz parte de um projeto de pesquisa que envolve a Universidade de São Paulo (USP), Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal Fluminense (UFF), Universidade Federal da Bahia (UFBA), e as estrangeiras Universidade de Granada (Espanha), Universidade de Sorbonne (França), Universidade de Bremen (Alemanha) e Universidade de Albania (EUA). A primeira autora, Dra. Giselle Utida, participou do projeto durante seu doutoramento.

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