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Sangue glacial: Descobertas alarmantes sobre a neve vermelha

Cientistas pesquisam um grande aumento de registros de sangue glacial, fenômeno formado por algas que colorem a neve de vermelho, e sua possível conexão com as mudanças climáticas e o aquecimento global.

Sangue glacial: Descobertas alarmantes sobre a neve vermelha
Cientistas estudam o aumento do sangue glacial, fenômeno formado por algas que colorem a neve de vermelho, e sua conexão com as mudanças climáticas. (imagem: Getty / AFP / Miguel Medina)

Durante a maior parte do ano, os alpes franceses ficam envoltos por neve branca. Mas, conforme o verão se aproxima, partes da neve adquirem cores laranjas, rosas e vermelhas muito vivas, um fenômeno comumente chamado de sangue glacial. Mas é claro que o fenômeno impressionante e, por vezes, assustador, não é sangue de verdade: Estas cores são formadas por algas minúsculas, que vivem de maneira abundante no gelo.

Mas o fato é que, nos últimos anos, as regiões alpinas têm registrado um aumento impressionante na ocorrência de sangue glacial. E, embora a proliferação destas algas na neve ainda não seja bem compreendida pela ciência, uma pesquisa publicada na Frontiers in Plant Science indica que seu aumento pode não ser um bom sinal.

Estas algas são a essência de todos os ecossistemas do planeta. Tratam-se de organismos minúsculos que realizam fotossíntese, assim como as plantas, produzindo a maior parte do oxigênio do planeta e formando a base da maioria das cadeias alimentares. Embora sua presença seja geralmente benéfica, em condições incomuns elas podem se multiplicar de maneira desbalanceada, causando efeitos negativos para o meio-ambiente.

As cores tão vivas e assustadoras vêm de pigmentos e moléculas que as algas utilizam para se proteger da luz ultravioleta e absorver mais luz solar, fazendo com que a neve subjacente derreta mais rapidamente. Portanto, um aumento desenfreado do fenômeno pode acabar mudando completamente a dinâmica do ecossistema e acelerando ainda mais o derretimento das geleiras.

Devido aos relatos crescentes do fenômeno, pesquisadores de vários institutos alpinos decidiram voltar sua atenção ao sangue glacial e às algas presentes nestes locais, com o objetivo de compreender melhor quais espécies vivem lá, como sobrevivem e o que pode estar fazendo o número de registros aumentar.

Como funcionou o experimento?

Um número quase imensurável de espécies de algas vive nas montanhas alpinas. Por isso, os pesquisadores iniciaram os estudos realizando um censo em partes dos Alpes franceses para descobrir a localização e distribuição geográfica das espécies. Eles coletaram amostras de solo em cinco picos e em múltiplas altitudes, posteriormente buscando pelo DNA das algas. Assim, os cientistas descobriram que muitas espécies preferem viver em elevações específicas e provavelmente evoluíram para prosperar nas condições encontradas lá.

Os pesquisadores também trouxeram algumas espécies de volta ao laboratório para investigar potenciais gatilhos de floração que possam causar o fenômeno. Embora o sangue glacial ocorra naturalmente, existe a possibilidade de que atividade humana esteja tornando-o mais explosivo e frequente.

Um gênero chave de algas, apropriadamente chamado de “Sanguina”, cresce apenas acima de 2000 metros de altitude.

Sabe-se que condições climáticas extremas, temperaturas excepcionalmente quentes e escoamento agrícola e de esgoto são capazes de influenciar a proliferação de algas aquáticas. Parte das pesquisas em andamento está tentando compreender se o mesmo ocorre com as algas do gelo.

Caso seja confirmado, o fenômeno pode indicar que as ações antropogênicas (ou seja, de origem humana) estão influenciando o degelo de maneiras muito mais intensas e inusitadas do que esperávamos, o que é mais uma notícia alarmante para a natureza.

Apesar da amostragem de DNA das algas ainda ser incapaz de fornecer uma imagem completa de todas as formas de vida sob a neve, o estudo já foi capaz de revelar uma incrível diversidade de algas alpinas e ressaltar o quão pouco sabemos sobre elas.

Nos próximos anos, os pesquisadores continuarão acompanhando as espécies e tentarão estabelecer se as mudanças climáticas estão de fato associadas ao fenômeno. Por enquanto, ainda será necessário continuar cavando e estudando o ecossistema glacial - Talvez o mais importante e incompreendido tratando-se do futuro do planeta.