Quase 40% dos indígenas em terras da Amazônia vivem sem acesso adequado à água

Análise baseada no Censo 2022 revela precariedade no abastecimento, saneamento e gestão de resíduos, enquanto garimpo, secas extremas e mudanças climáticas ampliam riscos à saúde indígena.

Em 2024 e 2025, o Projeto Saúde e Alegria distribuiu mais de 5 mil filtros de nanotecnologia aos povos indígenas da bacia do rio Tapajós e outras comunidades tradicionais do Pará. Crédito: Junior Albuquerque/Saúde e Alegria
Em 2024 e 2025, o Projeto Saúde e Alegria distribuiu mais de 5 mil filtros de nanotecnologia aos povos indígenas da bacia do rio Tapajós e outras comunidades tradicionais do Pará. Crédito: Junior Albuquerque/Saúde e Alegria

Quase 40% da população indígena que vive em terras indígenas na Amazônia Legal não tem acesso considerado adequado à água. Segundo análise da InfoAmazonia com base no Censo Demográfico de 2022, 114 mil pessoas, ou 27% desse grupo, dependem principalmente de rios, lagos e igarapés para obter água.

Outros 37 mil indígenas (8,71%) utilizam principalmente água da chuva, enquanto 5.067 (1,19%) dependem de carros-pipa. Apenas 116 mil moradores de terras indígenas (27,38%) estão conectados à rede geral de distribuição, e 145 mil (34,29%) utilizam poços, fontes, nascentes ou minas, formas consideradas oficialmente adequadas e mais seguras.

O cenário é agravado pela contaminação dos corpos d’água provocada por atividades como garimpo e desmatamento, além da intensificação de eventos climáticos extremos. No Alto Rio Tapajós, no Pará, a indígena Munduruku Ediene Kirixi relata que a água dos rios perdeu a qualidade após o avanço do garimpo ilegal e da exploração mineral.

Garimpo e seca agravam crise

Na Terra Indígena Munduruku, quase 40% dos 9.281 habitantes dependem de rios, lagos e igarapés como principal fonte de água. Em algumas aldeias, a alternativa tem sido a instalação de poços. A associação coordenada por Ediene conseguiu recursos para perfurar minipoços artesianos em 12 comunidades durante a seca extrema de 2024.

O garimpo ilegal de ouro deixou um rastro de destruição na Terra Indígena Munduruku e contaminou os corpos hídricos do Alto Rio Tapajós, no Pará. Crédito: Christian Braga/Greenpeace
O garimpo ilegal de ouro deixou um rastro de destruição na Terra Indígena Munduruku e contaminou os corpos hídricos do Alto Rio Tapajós, no Pará. Crédito: Christian Braga/Greenpeace

A situação também afeta a saúde. Em 2024, o Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Tapajós registrou 1.894 casos de doenças diarreicas agudas por 10 mil habitantes, uma das maiores taxas do país. Segundo lideranças locais, a instalação de poços contribuiu para reduzir casos de diarreia e malária em aldeias atendidas.

Em fevereiro de 2026, uma decisão da Justiça Federal determinou que a União fornecesse mensalmente água potável à população atendida pelo DSEI Tapajós e construísse ou reformasse sistemas de abastecimento e poços artesianos. O Ministério da Saúde informou que mantém 13 processos licitatórios para instalações na bacia.

Problema se espalha pela Amazônia

No Alto Rio Negro, no Amazonas, a situação também preocupa, apesar do alto grau de conservação da região. Metade da população indígena atendida pelo DSEI local depende principalmente de rios, igarapés e lagos. Secas mais intensas e o crescimento das aldeias têm contribuído para a piora da qualidade da água.

Mariazinha Baré, coordenadora-geral da APIAM, afirma que comunidades passaram a coletar água da chuva diante das dificuldades. Em períodos de estiagem, igarapés podem ficar com barro e odor forte, tornando a água imprópria para consumo. O plano do DSEI prevê intervenções em 112 das 742 aldeias até 2027.

A análise mostra ainda que 99 das 145 terras indígenas do Amazonas não têm acesso à rede geral de distribuição de água. Para especialistas e organizações indígenas, ampliar sistemas de abastecimento e saneamento é também uma estratégia de adaptação climática.

Com a previsão de uma nova seca severa na Amazônia no segundo semestre de 2026, lideranças defendem ações estruturantes para evitar crises humanitárias. O Ministério da Saúde afirma que pretende ampliar atendimentos em áreas de risco, revisar planos de contingência e garantir equipamentos para armazenar e tratar água potável.

Referência da notícia

InfoAmazônia. (2026). Quase 40% dos indígenas em territórios da Amazônia vivem sem acesso adequado à água.