Castanha-da-amazônia indígena de Rondônia recebe pagamento por serviços ambientais
Produção de povos indígenas da Terra Indígena Rio Branco recebeu adicional de 20% na safra 2025/2026, valorizando conservação, qualidade, organização comunitária e sociobiodiversidade amazônica.

Pela primeira vez, a castanha-da-amazônia (Bertholletia excelsa) produzida por povos indígenas da Terra Indígena Rio Branco, em Rondônia, foi comercializada com pagamento por serviços ambientais (PSA). Na safra 2025/2026, além do valor de mercado do produto, as comunidades receberam um adicional de 20% como reconhecimento pelo papel desempenhado na conservação da floresta, na proteção da biodiversidade e na manutenção dos ecossistemas.
A iniciativa resulta de uma parceria entre a Castanhas Ouro Verde Importação e Exportação Ltda. e a Cooperativa dos Povos Indígenas do Rio Branco (Coopirb), construída no âmbito do projeto “Novas soluções tecnológicas e ferramentas para agregação de valor à cadeia produtiva da castanha-da-amazônia” (NewCast), coordenado pela Embrapa.
Para Patrícia da Costa, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente e coordenadora do NewCast, a experiência mostra como tecnologia, organização social e mecanismos de valorização econômica podem atuar conjuntamente para fortalecer as organizações locais. O modelo também reconhece os serviços ambientais prestados por comunidades que mantêm a floresta em pé.
Boas práticas melhoram qualidade da produção
A negociação também foi apoiada pela União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária (Unicafes), que contribuiu para aproximar a cooperativa indígena da empresa compradora e fortalecer sua capacidade de representação comercial.

A adoção das Boas Práticas para a produção de castanha-da-amazônia, tecnologia recomendada pela Embrapa, teve papel importante na valorização do produto. As orientações abrangem etapas como coleta, transporte, lavagem, seleção, pré-secagem e armazenamento, reduzindo perdas e riscos de contaminação.
Segundo o extrativista indígena Dalton Tupari, as recomendações contribuíram diretamente para a negociação. “Essas recomendações nos ajudam ao longo de todo o processo, desde a coleta até a entrega do produto. É um diferencial a mais porque agrega qualidade à castanha, que já tem como vantagem o fato de estar associada à conservação da floresta”, afirma.
Conservação também gera renda
Por meio da Coopirb, cerca de sete toneladas de castanha-da-amazônia foram comercializadas na safra 2025/2026 com o pagamento adicional vinculado ao PSA. Para Tupari, o resultado representa uma forma concreta de reconhecer o trabalho realizado pelas comunidades indígenas.
A pesquisadora da Embrapa Rondônia Lúcia Wadt ressalta que a conquista é resultado de um processo construído ao longo dos anos. Desde 2015, a instituição apoia povos Tupari e Aruá da Terra Indígena Rio Branco na adoção de boas práticas para a produção de castanha, inicialmente por meio de iniciativas ligadas ao Pacto das Águas e, mais recentemente, pelo NewCast.
Recursos permanecem nos territórios
O contrato entre a Castanhas Ouro Verde e a Coopirb envolve comunidades de diferentes etnias em uma área de aproximadamente 236 mil hectares. Além do pagamento pela castanha, o acordo estabelece o adicional de 20% destinado à organização indígena como reconhecimento pelos serviços ambientais associados à produção.

Os recursos são administrados coletivamente e podem financiar ações definidas pelas próprias comunidades, incluindo iniciativas de infraestrutura, saúde, educação, fortalecimento cultural e melhoria das condições de produção. Dessa forma, parte do valor gerado pela cadeia permanece nos territórios e pode beneficiar diretamente as famílias extrativistas.
A experiência também evidencia a importância do cooperativismo para ampliar o acesso dos povos indígenas aos mercados. Ao reunir a produção, padronizar procedimentos, fortalecer a gestão e ampliar a capacidade de negociação, a Coopirb contribui para melhorar as condições de comercialização da castanha.
NewCast integra tecnologia e sociobiodiversidade
O projeto NewCast busca desenvolver e articular soluções tecnológicas, organizacionais e comerciais para agregar valor à cadeia da castanha-da-amazônia. A experiência em Rondônia reúne esses diferentes elementos ao combinar boas práticas de produção, conhecimento tradicional, organização comunitária, cooperativismo, mercado e pagamento por serviços ambientais.
O modelo adotado na Terra Indígena Rio Branco aponta para novas possibilidades de comercialização de produtos da sociobiodiversidade. Ao mesmo tempo em que melhora a qualidade da castanha e reduz perdas, a iniciativa reconhece economicamente o papel dos povos indígenas na conservação da floresta.
Com validade para a safra 2025/2026, o acordo entre a Castanhas Ouro Verde e a Coopirb representa um avanço na construção de cadeias produtivas que associam geração de renda e conservação ambiental. A experiência mostra, na prática, como a valorização dos produtos florestais pode caminhar junto com o reconhecimento de quem protege os territórios amazônicos.
Referência da notícia
Portal Amazônia. (2026). Castanha-da-amazônia produzida por indígenas em Rondônia recebe pagamento por serviços ambientais.