Estudo identifica 18 espécies de árvores que ajudam na recuperação da Amazônia; conheça elas

Espécies pioneiras suportam calor extremo, sol intenso e solos degradados, criando condições para o retorno da biodiversidade e ajudando a floresta amazônica a se regenerar.

Imagem de uma Castanheira-Do-Pará (Bertholletia excelsa), uma das árvores identificadas no estudo. Crédito: eulucasramus / iNaturalist
Imagem de uma Castanheira-Do-Pará (Bertholletia excelsa), uma das árvores identificadas no estudo. Crédito: eulucasramus / iNaturalist

Um estudo brasileiro identificou um grupo de 18 espécies de árvores que desempenha papel fundamental no processo de recuperação da Amazônia após áreas serem destruídas. Entre elas estão a embaúba, o araticum-bravo, o ingá-vermelho, a tatapiririca, o inajá e a castanheira-do-pará.

A pesquisa, liderada pelo pesquisador Fernando Elias, do Museu Paraense Emílio Goeldi, com apoio do Instituto Serrapilheira, analisou 102 parcelas de floresta secundária distribuídas por quatro regiões do leste da Amazônia. As áreas estavam separadas, em média, por 600 quilômetros, mas apresentaram um padrão semelhante de regeneração.

A descoberta ajuda a explicar como a floresta consegue se recompor depois de processos de degradação provocados pela abertura de pastagens, áreas agrícolas e outros usos do solo. Ao contrário da maioria das árvores amazônicas, que precisa de sombra para sobreviver, as espécies identificadas suportam condições mais hostis, como sol intenso, calor extremo e solo compactado.

Árvores pioneiras abrem caminho para a floresta

Essas árvores são chamadas de espécies pioneiras e aparecem primeiro durante a regeneração da chamada floresta secundária. Segundo Magno Castelo Branco, biólogo, PhD em ecologia e gestão de recursos naturais e membro do painel de especialistas da Organização das Nações Unidas (ONU), elas ajudam a criar um ambiente mais favorável para o desenvolvimento de outras plantas.

Detalhe da árvore do inajá e os cruatás que envolvem o fruto. Crédito: Paulo André Rodrigues da Silva/Embrapa/Divulgação
Detalhe da árvore do inajá e os cruatás que envolvem o fruto. Crédito: Paulo André Rodrigues da Silva/Embrapa/Divulgação

Ao crescerem rapidamente e produzirem grande quantidade de folhas, essas espécies contribuem para a fertilização do solo. Suas copas também reduzem a temperatura no interior da vegetação. Segundo o pesquisador Fernando Elias, a diferença entre uma área sob sol pleno e o interior da floresta pode chegar a 3 ou 4 graus Celsius.

Com a formação dessa sombra e a melhoria das condições do solo, espécies mais sensíveis ao calor conseguem se estabelecer. Dessa maneira, as pioneiras funcionam como uma espécie de “porta de entrada” para o retorno gradual da diversidade vegetal.

Lista reúne espécies com funções diferentes

Entre as 18 espécies identificadas estão a embaúba (Cecropia palmata), o araticum-bravo (Annona exsucca), o ingá-vermelho (Inga alba), a tatapiririca (Tapirira guianensis) e o inajá (Attalea maripa). A relação também inclui a castanheira-do-pará (Bertholletia excelsa).

Completam a lista Attalea speciosa, Cassia fastuosa, Jacaranda copaia, Croton matourensis, Bellucia grossularioides, Inga edulis, Maprounea guianensis, Didymopanax morototoni, Sacoglottis guianensis, Himatanthus articulatus, Trattinnickia rhoifolia e Vismia guianensis.

Algumas dessas espécies exercem funções específicas na recuperação do ambiente. O ingá-vermelho, por exemplo, é uma leguminosa que estabelece associação com bactérias nas raízes e contribui para a incorporação de nitrogênio ao solo. Já o inajá atrai animais que consomem seus frutos e podem transportar sementes de outras áreas da floresta.

Pesquisa pode orientar restauração

A identificação das espécies pode ajudar projetos de restauração florestal a escolher quais árvores plantar inicialmente em áreas degradadas. Como elas já demonstram capacidade de crescer naturalmente em ambientes hostis, podem ser utilizadas para acelerar a recuperação de determinadas regiões.

A regeneração ganha importância diante do histórico de desmatamento acumulado na Amazônia. Embora o bioma tenha registrado entre agosto de 2025 e julho de 2026 a menor área sob alerta desde o início da série atual do sistema Deter, em 2016, foram identificados 2.874 quilômetros quadrados sob alerta no período.

O governo federal também possui o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), que prevê a restauração de 12 milhões de hectares em todos os biomas brasileiros até 2030. Nesse cenário, conhecer as espécies que iniciam naturalmente a regeneração pode contribuir para tornar as ações mais eficientes.

Recuperar não significa plantar poucas espécies

Apesar do potencial das 18 árvores, os pesquisadores ressaltam que elas não devem ser usadas como substitutas da diversidade natural da Amazônia. A função das espécies pioneiras é criar condições para que outras plantas, mais sensíveis às condições extremas, possam voltar a ocupar a área.

“Essas espécies são a tentativa da floresta de se reerguer”, explica Fernando Elias. Para o pesquisador, compreender esse processo permite apoiar a capacidade natural de recuperação do bioma sem deixar de lado a necessidade de restaurar a biodiversidade.

A pesquisa contou ainda com apoio do CNPq, do Museu Paraense Emílio Goeldi, do Centro Capoeira e da Rede Amazônia Sustentável. Os resultados reforçam que a própria floresta oferece pistas importantes para orientar estratégias de restauração e recuperar, de forma mais eficiente, áreas degradadas.

Referência da notícia

G1. (2026). Quais são as 18 espécies de árvores que sustentam a Amazônia na luta contra o aquecimento global.