Quando e como surgiram os seres humanos? Novos conhecimentos sobre a nossa evolução

A ciência continua revelando novos capítulos da nossa história evolutiva. Agora, um novo retrato de resiliência, adaptabilidade e criatividade: as qualidades que permitiram uma espécie africana a se tornar uma força global que transformaria todo o planeta.

Cada passo ao longo deste percurso evolutivo conta uma história de resiliência, adaptação e criatividade. Novas descobertas revelam que a jornada para se tornar humano foi muito mais fascinante do que se imaginava.

A questão das nossas origens tem fascinado a humanidade durante séculos. Hoje, graças aos avanços da genética, da paleontologia e da arqueologia, estamos reescrevendo a história de como surgiu o Homo sapiens. Descobertas recentes revelam uma narrativa muito mais complexa e fascinante do que imaginávamos.

Da África para o mundo

Durante décadas, acreditou-se que a nossa espécie tinha surgido num único local, no leste de África, há cerca de 200.000 anos. No entanto, descobertas recentes estão transformando radicalmente esta ideia. Fósseis de Jebel Irhoud, em Marrocos, datados de 300 mil anos atrás, e de Omo Kibish, na Etiópia, com cerca de 233 mil anos, sugerem que os primeiros Homo sapiens já habitavam o continente africano muito antes do que se estimava.

Antes de 2017, acreditávamos que a nossa espécie tinha 200.000 anos. Os fósseis de Jebel Irhoud, em Marrocos, mudaram tudo: com 300.000 anos, são os restos de Homo sapiens mais antigos já encontrados, antecipando o relógio da nossa existência em 100.000 anos.

Mas a ideia mais revolucionária é a nova teoria das origens múltiplas. Em vez de um único “berço da humanidade”, as provas genéticas e fósseis sugerem que a nossa espécie surgiu através de populações separadas em diferentes regiões de África, que mantiveram a troca genética durante dezenas de milhares de anos.

Esta estrutura populacional, semelhante a uma rede, explicaria a diversidade genética que observamos nos humanos modernos, bem como os diferentes momentos em que os traços anatômicos modernos aparecem no registro fóssil africano.

A saída da África também não foi um acontecimento único. O Homo sapiens começou a migrar para fora do continente em vários épocas, sendo a mais bem sucedida a ocorrida há cerca de 70.000 anos. Estes grupos transportaram inovações tecnológicas e culturais que lhes permitiram adaptar-se a novos ambientes, desde os desertos do Médio Oriente até às estepes da Eurásia.

Quando os humanos não estavam sozinhos

Uma das descobertas mais surpreendentes do século 21 é o fato de os nossos antepassados não terem conquistado o mundo sozinhos. Quando o Homo sapiens saiu da África, encontrou outras espécies humanas que já viviam na Eurásia: os neandertais na Europa e no Médio Oriente e os denisovanos na Ásia.

Uma pesquisa genética feita em 2024 revelou que o cruzamento entre sapiens e neandertais ocorreu principalmente entre 50.500 e 43.500 anos atrás. Este encontro não foi superficial: todos os humanos atuais de ascendência não africana têm entre 1% e 2% de DNA neandertal no seu genoma. Os melanésios, por seu lado, conservam 4%-6% de genes denisovanos.

A hibridação mostra que as fronteiras entre as espécies humanas eram muito mais porosas do que se pensava. Não se tratou de encontros isolados; a troca genética foi suficientemente significativa para deixar uma marca permanente no nosso DNA.

Estas contribuições genéticas são mais do que curiosidades evolutivas. Os genes herdados dos neandertais influenciam características como a cor da pele e do cabelo, a resposta imunitária e até a suscetibilidade a certas doenças. Algumas variantes do neandertal também ajudaram os humanos a se adaptar aos climas frios da Eurásia, enquanto outras podem ter aumentado o risco de diabetes ou depressão em contextos modernos.

O que nos torna humanos

O que distingue o Homo sapiens das outras espécies humanas? A resposta vai além da anatomia. Embora o nosso cérebro não seja o maior de sempre, tem uma organização neuronal única que lhe permite capacidades cognitivas extraordinárias.

A linguagem complexa é talvez a nossa característica mais distintiva. Ao contrário de outras espécies, os humanos modernos desenvolveram sistemas simbólicos sofisticados, que permitem que o conhecimento seja transmitido de geração em geração. Este acúmulo cultural acelerou a nossa evolução de uma forma que nenhuma outra espécie conheceu.

Durante décadas, pensamos que a arte narrativa tinha tido origem na Europa há cerca de 20.000 anos. Esta pintura indonésia com 51.200 anos de idade veio derrubar essa teoria, representando a primeira história ilustrada do mundo.

A arte e a expressão simbólica são manifestações precoces da cognição moderna. A mais antiga pintura figurativa conhecida, descoberta na Indonésia e datada de há 51.200 anos, mostra que os nossos antepassados já possuíam pensamento abstrato e capacidade narrativa. Estas expressões não eram meras decorações; representavam cosmologias, histórias e conhecimentos essenciais para a sobrevivência.

Estudos recentes identificaram genes específicos dos humanos que regulam o desenvolvimento sináptico e a conectividade neural. Estes genes, que nos diferenciam dos Neandertais e dos Denisovanos, poderiam explicar as nossas capacidades linguísticas avançadas, embora, curiosamente, também estejam ligados a uma maior suscetibilidade a doenças neurológicas, como o autismo e a esquizofrenia.

Referências da notícia

El País. ¿Desde cuándo existimos los seres humanos?

Ethic. Cinco claves que explican el origen africano de la humanidad.

El Español. Los descubrimientos arqueológicos e históricos que han sacudido el mundo en 2024.