Plástico invade ninhos de tartaruga-verde em ilha remota e preocupa cientistas

Estudo identificou que ninhos de tartarugas-verde em uma praia de desova em ilha brasileira remota estão soterrando plásticos, o que pode prejudicar a conservação da espécie.

Parcel das Tartarugas, praia de nidificação na ilha da Trindade: local onde foram achadas as primeiras rochas plásticas. Crédito: Fernanda Avelar Santos/UFPR.
Parcel das Tartarugas, praia de nidificação na ilha da Trindade: local onde foram achadas as primeiras rochas plásticas. Crédito: Fernanda Avelar Santos/UFPR.

A Ilha da Trindade é um arquipélago vulcânico no oceano Atlântico, o ponto mais distante do litoral brasileiro, pertencente ao Espírito Santo e protegido pela Marinha do Brasil.

A Ilha da Trindade forma um arquipélago com Martim Vaz, a 48 quilômetros, no ponto mais extremo a leste do Brasil continental. Fica a cerca de 1.140 km da costa do Espírito Santo.

Ela é considerada um laboratório natural com biodiversidade única, um importante berçário de tartarugas marinhas e habitat de aves raras. E um estudo de 2022, como já noticiamos aqui anteriormente, identificou rochas compostas por plástico e sedimentos naturais na ilha, presentes na região desde 2019. Esse material era oriundo de redes de pesca que vieram parar na praia por correntes oceânicas e tiveram ação humana na queima para eliminar esse lixo.

Ou seja, a rocha plástica encontrada na Ilha era formada pelo derretimento e posterior solidificação de plástico liberado no meio ambiente. As análises indicaram que são compostas por polietileno e polipropileno, dois polímeros sintéticos utilizados em embalagens e linhas de pesca.

Rochas de plástico (verde) na ilha da Trindade. Crédito: Fernanda Avelar Santos/UFPR.
Rochas de plástico (verde) na ilha da Trindade. Crédito: Fernanda Avelar Santos/UFPR.

Mas agora, outro estudo recente divulgado na revista Marine Pollution Bulletin pelos mesmos pesquisadores do estudo de 2022, observou um grande acúmulo de plásticos na ilha, nas depressões onde tartarugas-verde (Chelonia mydas) depositam seus ovos; e essa poluição plástica pode acabar comprometendo o futuro da espécie na região. Saiba mais abaixo.

Soterramento de ninhos de tartaruga em ilha brasileira remota

O que acontece é que os ninhos das tartarugas-verde na ilha estão enterrando fragmentos plásticos e até as rochas plásticas. E os pesquisadores alertam que esse lixo plástico pode virar parte do solo, ficar milhões de anos soterrado e ameaçar ovos, filhotes e a sobrevivência futura da espécie.

A ilha recebe poluição plástica de forma persistente e o caso mais emblemático foi observado no Parcel das Tartarugas, uma praia de nidificação onde a dinâmica de deposição de ovos cria depressões na areia, ano após ano, exatamente o tipo de ambiente que favorece o acúmulo e o soterramento de plásticos.

Na Ilha da Trindade, ninhos de tartaruga-verde soterram rochas plásticas, revelando poluição marinha que ameaça ovos, filhotes e o futuro da espécie.
Na Ilha da Trindade, ninhos de tartaruga-verde soterram rochas plásticas, revelando poluição marinha que ameaça ovos, filhotes e o futuro da espécie.

O ninho das tartarugas é uma depressão que favorece o acúmulo de plástico de duas formas. Primeiro, o movimento das ondas e do vento leva os fragmentos plásticos para dentro do “buraco” (ninho); e segundo, por que ao escavar e cobrir o ninho, a tartaruga-verde movimenta a areia e pode soterrar fragmentos que já estavam ali, integrando o plástico ao perfil do sedimento.

Os fragmentos plásticos estão enterrados a até 10 centímetros em áreas de nidificação, aumentando a chance de permanecer soterrado por períodos de anos extremamente longos e de comprometer a conservação da tartaruga-verde.

O alerta principal é que o soterramento aumenta a chance de permanência do plástico, reforçando um acúmulo contínuo no mesmo tipo de área, ano após ano. E isso pressiona a praia de nidificação justamente onde o ciclo reprodutivo depende de estabilidade do sedimento.

Além disso, os pesquisadores observaram que as primeiras rochas plásticas, encontradas em 2019, estão erodindo, e essa erosão não foi pequena. Cerca de 40% da área dessas rochas já tinha se perdido. Ela virou fragmentos, que se espalharam para outras seis praias da ilha da Trindade.

E a preocupação é justamente essa: quando a rocha plástica se fragmenta, ela multiplica o problema.

Referências da notícia

Ninhos de tartaruga-verde podem soterrar rochas de plástico e comprometer espécie. 17 de janeiro, 2026. Vitória Rosendo.

Anthropogenic stones on a remote oceanic island: formation, transport, and burial in a sea turtle nesting beach. 13 de dezembro, 2025. Santos, et al.