Plástico invade ninhos de tartaruga-verde em ilha remota e preocupa cientistas
Estudo identificou que ninhos de tartarugas-verde em uma praia de desova em ilha brasileira remota estão soterrando plásticos, o que pode prejudicar a conservação da espécie.

A Ilha da Trindade é um arquipélago vulcânico no oceano Atlântico, o ponto mais distante do litoral brasileiro, pertencente ao Espírito Santo e protegido pela Marinha do Brasil.
Ela é considerada um laboratório natural com biodiversidade única, um importante berçário de tartarugas marinhas e habitat de aves raras. E um estudo de 2022, como já noticiamos aqui anteriormente, identificou rochas compostas por plástico e sedimentos naturais na ilha, presentes na região desde 2019. Esse material era oriundo de redes de pesca que vieram parar na praia por correntes oceânicas e tiveram ação humana na queima para eliminar esse lixo.
Ou seja, a rocha plástica encontrada na Ilha era formada pelo derretimento e posterior solidificação de plástico liberado no meio ambiente. As análises indicaram que são compostas por polietileno e polipropileno, dois polímeros sintéticos utilizados em embalagens e linhas de pesca.

Mas agora, outro estudo recente divulgado na revista Marine Pollution Bulletin pelos mesmos pesquisadores do estudo de 2022, observou um grande acúmulo de plásticos na ilha, nas depressões onde tartarugas-verde (Chelonia mydas) depositam seus ovos; e essa poluição plástica pode acabar comprometendo o futuro da espécie na região. Saiba mais abaixo.
Soterramento de ninhos de tartaruga em ilha brasileira remota
O que acontece é que os ninhos das tartarugas-verde na ilha estão enterrando fragmentos plásticos e até as rochas plásticas. E os pesquisadores alertam que esse lixo plástico pode virar parte do solo, ficar milhões de anos soterrado e ameaçar ovos, filhotes e a sobrevivência futura da espécie.
A ilha recebe poluição plástica de forma persistente e o caso mais emblemático foi observado no Parcel das Tartarugas, uma praia de nidificação onde a dinâmica de deposição de ovos cria depressões na areia, ano após ano, exatamente o tipo de ambiente que favorece o acúmulo e o soterramento de plásticos.

O ninho das tartarugas é uma depressão que favorece o acúmulo de plástico de duas formas. Primeiro, o movimento das ondas e do vento leva os fragmentos plásticos para dentro do “buraco” (ninho); e segundo, por que ao escavar e cobrir o ninho, a tartaruga-verde movimenta a areia e pode soterrar fragmentos que já estavam ali, integrando o plástico ao perfil do sedimento.
Os fragmentos plásticos estão enterrados a até 10 centímetros em áreas de nidificação, aumentando a chance de permanecer soterrado por períodos de anos extremamente longos e de comprometer a conservação da tartaruga-verde.
O alerta principal é que o soterramento aumenta a chance de permanência do plástico, reforçando um acúmulo contínuo no mesmo tipo de área, ano após ano. E isso pressiona a praia de nidificação justamente onde o ciclo reprodutivo depende de estabilidade do sedimento.
Além disso, os pesquisadores observaram que as primeiras rochas plásticas, encontradas em 2019, estão erodindo, e essa erosão não foi pequena. Cerca de 40% da área dessas rochas já tinha se perdido. Ela virou fragmentos, que se espalharam para outras seis praias da ilha da Trindade.
E a preocupação é justamente essa: quando a rocha plástica se fragmenta, ela multiplica o problema.
Referências da notícia
Ninhos de tartaruga-verde podem soterrar rochas de plástico e comprometer espécie. 17 de janeiro, 2026. Vitória Rosendo.
Anthropogenic stones on a remote oceanic island: formation, transport, and burial in a sea turtle nesting beach. 13 de dezembro, 2025. Santos, et al.