O Atlântico Sul e as mudanças climáticas

Novos equipamentos oceanográficos foram instalados para o monitoramento das variações na circulação do Atlântico Sul. Essas variações podem trazer consequências que vão desde mudanças no regime de precipitação no Brasil até impactos em todo sistema climático da Terra.

Carolina Barnez Carolina Barnez 28 Mar. 2019 - 07:13 UTC
Foram instalados 3 equipamentos para o estudo do impacto das mudanças climáticas no Atlântico Sul. Créditos: Agência FAPESP/Mario Quandt Monteiro/SAMOC

Em fevereiro deste ano, o Navio Oceanográfico Antares, da Marinha do Brasil, saiu em uma campanha de 22 dias para a instalação de três equipamentos que auxiliarão no monitoramento das mudanças climáticas no Atlântico Sul. O objetivo principal do projeto SAMBAR (do inglês South Atlantic Meridional Overturning Circulation Basin-wide Array) é detectar alterações na circulação oceânica do Atlântico Sul, que tem efeito direto no sistema climático do planeta. De um ponto de vista mais regional, essa circulação pode afetar os padrões de precipitação no Brasil, impactando agricultura e fornecimento de água tanto para nosso consumo quanto para industria e setor energético.

Os equipamentos recém ancorados medirão temperatura, salinidade e velocidade das correntes marinhas. Alguns foram instalados a 4 km de profundidade e a mais de 1.950 km da costa. É a primeira vez que equipamentos são colocados em pontos estratégicos tão distantes do litoral brasileiro.

“As mudanças climáticas têm sido muito estudadas a partir de dados coletados na atmosfera. No entanto, comparativamente, ainda avançamos pouco no conhecimento sobre o que ocorre nos oceanos, que são os grandes reguladores do clima na Terra”, disse Edmo Campos, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) em entrevista à AgênciaFAPESP. Segundo Campos, as medições são dificultadas por serem em lugares muito remotos do oceano. “A possibilidade de ter esses equipamentos por mais de cinco anos no fundo do Atlântico Sul representará um grande avanço”, disse o professor, que é coordenador do lado brasileiro do projeto.

O Navio Oceanográfico Antares, da Marinha do Brasil, usado na campanha . Créditos: Marinha do Brasil no twitter (@marmilbr)

O projeto SAMBAR é uma etapa avançada do projeto SAMOC (sigla em inglês para “Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico Sul”) que conta com a participação de vários países como Inglaterra, Estados Unidos, África do Sul e Argentina, e foi iniciado em 2007. O segmento brasileiro dos projetos SAMOC e SAMBAR são financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), como parte do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais.

A importância do Atlântico Sul

A célula de revolvimento meridional do Atlântico (CRM) tem recebido cada vez mais atenção nas últimas décadas, como componente essencial da circulação termohalina global, fundamental para a manutenção do clima no planeta. O papel do Atlântico Sul está cada vez mais evidente, uma vez que sua circulação superficial controla a quantidade de “sal” e calor que é transportado para o Atlântico Norte, como parte do ramo superior da CRM. É no Atlântico Sul que as águas do Índico e Pacífico se misturam, proveniente do vazamento das Agulhas e da passagem de Drake, respectivamente. O balanço dessas massa de águas com diferentes características influencia a água que chegará no Atlântico Norte e, consequentemente, todo funcionamento da circulação termohalina global.

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