Paisagem hídrica do Cerrado muda com avanço de reservatórios artificiais

Levantamento do MapBiomas revela redução de 38% da superfície de rios, lagos e lagoas naturais desde 1985, enquanto barragens e açudes avançam, alterando o equilíbrio hídrico do bioma brasileiro.

A expansão das hidrelétricas alagou 312 mil hectares de vegetação nativa ao longo dessas quatro décadas – Foto: Thiago Amaral
A expansão das hidrelétricas alagou 312 mil hectares de vegetação nativa ao longo dessas quatro décadas – Foto: Thiago Amaral

A paisagem hídrica do Cerrado brasileiro vem passando por uma transformação profunda nas últimas quatro décadas. Dados do MapBiomas, produzidos em parceria com a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), mostram que a superfície ocupada por rios, lagos e lagoas naturais no bioma diminuiu 38% entre 1985 e 2025. No mesmo período, a área coberta por barragens, açudes e outros reservatórios artificiais cresceu 87%.

O levantamento evidencia uma mudança significativa na forma como a água está distribuída em um dos principais biomas do país. Conhecido como o "berço das águas" do Brasil, o Cerrado abriga nascentes que alimentam importantes bacias hidrográficas nacionais, tornando as alterações em sua dinâmica hídrica motivo de preocupação para pesquisadores e gestores ambientais.

Segundo o professor Pedro Luiz Côrtes, do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) e da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP), os dados refletem o aumento da intervenção humana sobre o território. "Durante muito tempo, o bioma foi considerado uma região pouco produtiva. Posteriormente, em razão de suas inúmeras nascentes, que alimentam importantes bacias hidrográficas brasileiras, passou a despertar interesse para a construção de barragens e usinas hidrelétricas destinadas à geração de energia, à irrigação e ao abastecimento urbano", explica.

Mudanças preocupam especialistas

A análise do MapBiomas foi realizada com base em imagens dos satélites Landsat, que possuem resolução espacial de 30 metros. Essa limitação impede o mapeamento detalhado de corpos d'água menores e dificulta estimativas precisas sobre o volume total de água disponível no bioma.

Apesar dessa restrição, os resultados apontam uma tendência consistente: corpos hídricos naturais com dimensões superiores a 30 metros estão diminuindo, enquanto reservatórios artificiais se tornam cada vez mais presentes na paisagem. A expansão dessas estruturas acompanha o crescimento das demandas por geração de energia, irrigação agrícola e abastecimento das cidades.

Embora barragens e açudes desempenhem papel estratégico para o desenvolvimento econômico, especialistas alertam que a substituição de ambientes naturais por estruturas artificiais pode alterar o funcionamento dos ecossistemas e comprometer processos ecológicos essenciais para a manutenção dos recursos hídricos.

Impactos para a segurança hídrica

As mudanças registradas no Cerrado podem produzir efeitos que ultrapassam os limites do próprio bioma. Como grande parte das principais bacias hidrográficas brasileiras depende das nascentes localizadas na região, alterações na disponibilidade e na dinâmica das águas têm potencial para afetar o abastecimento, a produção agrícola e a geração de energia em diferentes partes do país.

De acordo com Pedro Luiz Côrtes, a expansão dos reservatórios precisa ser acompanhada por avaliações contínuas de seus impactos ambientais acumulados. A redução de áreas naturais pode comprometer nascentes, modificar o regime dos rios e aumentar a vulnerabilidade das regiões durante períodos de estiagem prolongada, que tendem a se tornar mais frequentes com as mudanças climáticas.

Para o pesquisador, o monitoramento permanente da paisagem hídrica é uma ferramenta fundamental para orientar políticas públicas e estratégias de conservação. A preservação dos corpos d'água naturais do Cerrado é considerada essencial para garantir a segurança hídrica das populações, proteger a biodiversidade e assegurar o equilíbrio das bacias hidrográficas que dependem das águas do bioma.

Referência da notícia

Jornal da USP. (2026). Paisagem hídrica do Cerrado muda com avanço de reservatórios artificiais.