Estudo reinterpreta fósseis brasileiros e revisa marco da colonização do fundo oceânico

Pesquisa com participação da Unesp revela que fósseis encontrados em Corumbá (MS), antes atribuídos aos primeiros animais marinhos, correspondem a comunidades de microrganismos preservadas há cerca de 544 milhões de anos.

Com o uso de novas tecnologias, pesquisa mostra que fósseis brasileiros são comunidades de microrganismos preservadas há 544 milhões de anos. Crédito: Jornal da UNESP
Com o uso de novas tecnologias, pesquisa mostra que fósseis brasileiros são comunidades de microrganismos preservadas há 544 milhões de anos. Crédito: Jornal da UNESP

Um estudo com participação de pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) trouxe uma nova interpretação para fósseis encontrados em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, e pode alterar a compreensão sobre um importante momento da evolução da vida na Terra. A pesquisa concluiu que estruturas antes consideradas evidências da atividade dos primeiros animais no fundo oceânico são, na realidade, fósseis de comunidades de microrganismos filamentosos preservados há aproximadamente 544 milhões de anos.

A reavaliação foi possível graças ao emprego de técnicas avançadas de análise, que permitiram examinar os fósseis com um nível de detalhe inédito. Os cientistas identificaram características incompatíveis com vestígios deixados por animais, como a preservação de estruturas celulares, variações no diâmetro dos filamentos e a ausência de marcas típicas de escavação no sedimento.

Os fósseis haviam sido descritos originalmente em 2017 como evidências de bioturbação, processo em que organismos revolvem o sedimento e deixam registros indiretos de sua presença. Na época, acreditava-se que as estruturas representavam trilhas produzidas por pequenos invertebrados, sugerindo uma das primeiras ocupações do fundo marinho por animais complexos.

Novas evidências mudam interpretação

Ao comparar os exemplares com outros fósseis conhecidos, os pesquisadores perceberam que as características observadas não correspondiam às de organismos capazes de produzir esse tipo de trilha. Em vez disso, as análises indicaram que as estruturas eram os próprios corpos fossilizados de organismos filamentosos.

Filamentos fossilizados preservados em rochas do Grupo Corumbá, em Mato Grosso do Sul, formadas há cerca de 544 milhões de anos, no período Ediacarano. Crédito: Bruno Becker-Kerber
Filamentos fossilizados preservados em rochas do Grupo Corumbá, em Mato Grosso do Sul, formadas há cerca de 544 milhões de anos, no período Ediacarano. Crédito: Bruno Becker-Kerber

Com base na espessura dos filamentos, no formato das células e na ausência de estruturas típicas de animais, a equipe concluiu que os fósseis pertencem a uma comunidade formada principalmente por cianobactérias e algas. Os filamentos mais finos apresentavam características semelhantes às de cianobactérias do gênero Oscillatoria, enquanto os maiores provavelmente correspondiam a algas ou bactérias filamentosas.

Segundo os pesquisadores, a descoberta não altera o conhecimento sobre a antiguidade desses microrganismos, já que as cianobactérias habitam os oceanos há cerca de 3,5 bilhões de anos. O principal impacto do estudo está na revisão da interpretação de um registro que vinha sendo considerado uma evidência precoce da colonização do fundo marinho por animais.

Tecnologias ampliam precisão das análises

A pesquisa combinou diferentes métodos para caracterizar os fósseis. Entre eles estão a microtomografia, capaz de reconstruir imagens tridimensionais do interior das amostras sem danificá-las; lâminas petrográficas, utilizadas para observar detalhes microscópicos da composição das rochas; e microscopia eletrônica de varredura, que revela estruturas superficiais em alta resolução.

Imagem obtida por meio da técnica de zoom tomography, que permite visualizar fósseis em detalhes com resolução de até 20 micrômetros (0,002 cm). Crédito: Bruno Becker-Kerber
Imagem obtida por meio da técnica de zoom tomography, que permite visualizar fósseis em detalhes com resolução de até 20 micrômetros (0,002 cm). Crédito: Bruno Becker-Kerber

As análises por microtomografia foram realizadas na linha de luz Mogno, do Sirius, acelerador de partículas instalado no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas (SP). A luz síncrotron permitiu visualizar as estruturas internas dos fósseis em três dimensões e identificar paredes celulares preservadas, reforçando que os organismos eram microrganismos fossilizados, e não túneis escavados por animais.

Outra contribuição importante do estudo foi a datação das rochas sedimentares que continham os fósseis. Como esse tipo de rocha costuma ser difícil de datar, a equipe aproveitou uma camada de cinza vulcânica presente na formação geológica, possibilitando determinar sua idade com maior precisão.

Revisão fortalece o processo científico

A análise indicou que as rochas têm cerca de 544 milhões de anos, período em que comunidades de microrganismos já ocupavam o fundo oceânico, mas antes da intensa atividade de animais complexos nesse ambiente. Os resultados sugerem que a colonização animal do leito marinho ocorreu posteriormente ao que se interpretava com base nesses fósseis.

Para os pesquisadores, o estudo demonstra como o avanço tecnológico contribui para revisar interpretações científicas consolidadas. Novos métodos de análise permitem reexaminar materiais já conhecidos e aprimorar a compreensão sobre eventos importantes da história da vida na Terra, oferecendo critérios mais precisos para a identificação de fósseis semelhantes em futuras pesquisas.

Referência da notícia

Jornal da UNESP. (2026). Estudo reinterpreta evidências da colonização do fundo oceânico e revisa marco da evolução da vida na Terra.