Enchente no RS: por que El Niño e aquecimento global aumentam o risco

A enchente no Rio Grande do Sul em 2024 levantou uma dúvida: foi azar ou clima mudando? Um estudo estima como aquecimento global e El Niño elevaram a chance de chuva persistente e intensa nos próximos anos.

Enchente, RS, rio grande do sul
A enchente no Sul do Brasil deixou a cidade de Igrejinha alagada, com equipes realizando o resgate de moradores em áreas inundadas.

As imagens de ruas virando rios e bairros inteiros submersos no Rio Grande do Sul, em 2024, estão na memória. Para muita gente, ficou a pergunta que muda tudo: foi “só” um azar meteorológico ou existe tendência por trás desses extremos?

Abril, enchente, Rio Grande do Sul
A tragédia das enchentes de abril no Rio Grande do Sul atingiu cidades como Novo Hamburgo e São Leopoldo, deixando mais de 180 mil pessoas desabrigadas.

Um estudo internacional analisou a enchente com a chamada atribuição de eventos, que compara o mundo real com cenários alternativos para estimar o peso de dois motores: o aquecimento global causado por atividades humanas e o El Niño 2023/24. A resposta é clara, mas sem atalhos: os dois aumentaram o risco, embora a incerteza seja grande porque eventos assim são raros.

Quando a chuva não vai embora

O que tornou o episódio tão destrutivo não foi apenas uma tempestade isolada, e sim a persistência. Entre o fim de abril e o início de maio, sistemas de chuva ficaram “travados” sobre o estado por dias, enquanto um corredor de umidade alimentava nuvens carregadas. Com o solo saturado, cada novo volume cai sobre bacias já no limite: rios sobem rápido, a drenagem urbana falha e deslizamentos ficam mais prováveis.

RS, Porto Alegre, sudeste, sul
Trajetórias de umidade e chuva no evento do RS (2/5/2024): à esquerda, trajetórias retroativas de 5 dias chegando a Porto Alegre (~850 hPa), à direita, estimativa de precipitação por satélite (IMERG). Fonte: Clarke, et al.

A atmosfera, nesse caso, funcionou como uma esteira. Um padrão de bloqueio ajudou a manter a circulação apontada para o Sul e reforçou ventos em baixos níveis que transportam vapor d’água. É a receita para chuva acumulada: não precisa chover “absurdamente” em uma hora; basta chover forte por tempo suficiente no lugar errado, na sequência errada.

O que a ciência mede nesse tipo de desastre

Para fugir do “achismo”, os pesquisadores usaram um indicador ligado a enchentes: o maior acumulado de chuva em quatro dias, em média sobre o Rio Grande do Sul. Depois, avaliaram como a probabilidade desse indicador muda quando a temperatura média global sobe e quando o Pacífico entra em fase de El Niño. O método combina diferentes bases de chuva e conjuntos de modelos climáticos para reduzir vieses de uma única fonte.

Em linguagem direta, a conclusão é que tanto o aquecimento global já observado quanto o El Niño 2023/24 “puxaram” o evento para um patamar mais provável e, em média, mais intenso.

Os valores mudam entre dados e modelos, mas a síntese do estudo aponta para:

  • Aquecimento global: aproximadamente dobrar a chance de um evento raro e elevar a intensidade média em torno de 10% a 15%.
  • El Niño 2023/24: aumento de chance também perto de duas vezes, com ganho de intensidade menor, na faixa de alguns pontos percentuais.
  • Um planeta ainda mais quente: tendência de novo aumento de risco, mesmo com a variabilidade natural continuando a “embaralhar” ano a ano.

Prevenção e adaptação para novas enchentes

O recado prático não é um único percentual, e sim uma mudança de postura: extremos já acontecem em um clima que mudou e tendem a ficar mais perigosos à medida que o aquecimento avança. Para o Brasil, isso significa tratar enchentes como problema de segurança pública e planejamento, unindo meteorologia, hidrologia, engenharia e política social.

O desastre expôs fragilidades de infraestrutura e desigualdade: quem mora em áreas de risco, sem rede de proteção, paga a conta primeiro.

Ao mesmo tempo, há decisões que reduzem danos sem depender de “controle” do tempo. Manutenção e reforço de diques e bombas, rotas de evacuação testadas, alertas com linguagem simples e alcance real, mapeamento atualizado de risco e fiscalização de ocupação em áreas vulneráveis são medidas clássicas.

Somam-se a elas soluções baseadas na natureza, como recuperar matas ciliares e áreas que funcionam como “esponjas”. A atribuição científica não substitui a prevenção, mas ajuda a priorizar desde já: indica que adaptação é urgente e que reduzir emissões hoje evita prejuízos maiores amanhã.

Referência da notícia

Climate change and El Niño behind extreme precipitation leading to major floods in southern Brazil in 2024. 10 de Janeiro, 2026. Clarke, B., Barnes, C., Rodrigues, R. et al.