O efeito da brisa marítima na Grande São Paulo

Mesmo sendo gerada a 50 quilômetros de distância e 700 m serra abaixo, no litoral paulista, a brisa marítima se propaga até São Paulo. Os efeitos da brisa marítima na região metropolitana estão principalmente associados a chuvas e dispersão de poluentes.

Carolina Barnez Carolina Barnez 14 Fev. 2019 - 10:54 UTC
Imagem de satélite da mancha urbana associada a Grande São Paulo. Produto Landsat-5. Créditos: NASA.

A brisa marítima é um tipo de circulação termicamente induzida, e funciona pelos menos princípios físicos que circulações em lagos e em montanhas (chamada vale-montanha). O movimento do ar ocorre devido a diferença de temperatura entre o mar e continente. No período da manhã a superfície do continente se aquece mais rapidamente que o mar, já que a água possui maior capacidade térmica - precisa de mais calor para elevar em 1º sua temperatura. Esse contraste de temperatura faz com que o ar próximo a superfície se desloque em direção a zona de menor pressão, ou seja, para a terra, onde a temperatura é maior.

Ao longo do dia, o mar vai se aquecendo, e a noite o contraste de temperatura inverte: a terra perde rapidamente calor após o pôr do sol enquanto a água o mantém por mais tempo. Dessa forma, durante a noite e madrugada temos a brisa do continente em direção ao mar, chamada de continental. É importante destacar que, apesar desse mecanismo existir ao longo de toda zona costeira, muitas vezes ele é "mascarado" pelos ventos de grande escala atuantes. Se a região estiver sob o efeito de um sistema atmosférico com ventos intensos, a circulação e brisa atuará de forma a fortalecer ou enfraquecer esses ventos, dependendo se sua direção está a favor ou contra eles.

Do litoral à cidade grande

Ao longo dos anos, muitos estudos tem sido desenvolvidos para o entendimento da influência da brisa marítima na região metropolitana de São Paulo. O que se sabe é que esta circulação litorânea afeta diretamente o clima da cidade, mesmo sendo gerada a 50 quilômetros de distância terrestre e 700 m serra abaixo. Já se sabe que a brisa marítima consegue se propagar até São Paulo, impulsionada pela circulação vale-montanha promovida pela Serra do Mar e pelo efeito de ilha de calor da própria zona urbana. São três circulações termicamente induzidas que combinadas permitem que o ar úmido do mar no litoral paulista chegue a São Paulo.

Esquema do funcionamento da brisa marítima e continental.

“Em São Paulo, a chegada da brisa marítima é muito positiva, pois deixa a temperatura um pouco mais baixa, o clima mais úmido e o ar menos poluído”, disse a Profª. Drª. Flávia Noronha Dutra Ribeiro, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), em entrevista à Agência FAPESP. Ribeiro é a autora principal de um trabalho publicado na revista Atmosferic Research sobre o efeito da brisa marítima na circulação superficial da região metropolitana de São Paulo. No entanto os autores do trabalho pontuam que os benefícios da brisa são temporários, pois a chegada da brisa deixa a atmosfera próxima à superfície mais estável, agindo como uma "tampa" e impedindo que novos poluentes emitidos se dispersem na vertical.

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