Canhões anti granizo não funcionam e são um desperdício de dinheiro; entenda o porquê
Canhões anti granizo podem gerar perturbações atmosféricas mensuráveis, mas não há evidências convincentes de que eles reduzam de forma confiável a formação de granizo ou os danos causados pelo fenômeno.

Um canhão anti granizo é um dispositivo terrestre inventado a mais de cem anos atrás, que dispara repetidamente ondas de choque na atmosfera. Tal dispositivo opera através da ignição de uma mistura de acetileno e oxigênio, que explode e envia ondas de choque em direção à atmosfera, interrompendo a formação de granizo dentro das tempestades.
Existe, no entanto, uma objeção extremamente simples a esse dispositivo:
- Tempestades geram naturalmente trovões, que são ondas de choque extremamente poderosas - muito mais poderosas do que qualquer onda de choque ocasionada por um canhão terrestre.
- Se as ondas de choque atmosféricas impedissem a formação de granizo de forma confiável, seria de se esperar que o próprio trovão suprimisse a formação de granizo com muito mais eficácia do que um canhão terrestre. No entanto, isso não ocorre, já que grande parte das tempestades com granizo também vem acompanhadas por trovões.

O artigo poderia terminar por aqui, mas vamos um pouco além, examinando alguns estudos científicos a respeito de canhões de granizo e sua eficácia em plantações para evitar a ocorrência de granizo.
Artigos a favor do uso de canhões anti granizo
Um artigo de Marcin Łoś et al. (2024) mostrou que canhões deste tipo e suas ondas de choque são capazes de interagir e alterar o estado da atmosfera, reduzindo a concentração de vapor d’água e material particulado, mostrando que o dispositivo pode ser utilizado para reduzir a concentração de Smogs - mas sem encontrar evidências de atuação sobre granizo.
Outros estudos de Hao Li et al. (2025) mostram que, em um único caso observado sobre a China, o canhão foi capaz de ocasionar mudanças em uma nuvem de tempestade, reduzindo o número de partículas de granizo na área afetada pela onda de choque.
Artigos contra o uso de canhões anti granizo
No entanto, o número de casos e estudos favoráveis ao uso de canhões ainda é estatisticamente muito pequeno, sendo que a própria Organização Meteorológica Mundial (OMM) emitiu um comunicado mencionando que faltam provas científicas mais convincentes sobre canhões de granizo.
Enquanto isso, outros estudos mostram o oposto: Victor M. Rodríguez-Moreno et al. (2024) analisou quatro anos de dados de utilização de canhões sobre o México e não encontrou nenhuma relação entre a operação de canhões anti granizo e a dissipação ou atenuação de eventos de chuva intensa.

Mas antes mesmo disso, um famoso artigo por Wieringa & Holleman (2006) revisou um grande número de experimentos históricos conduzidos utilizando força bruta contra a formação de granizo, incluindo canhões de granizo, foguetes explosivos e semeadura de nuvens.
Até mesmo uma série de processos jurídicos envolvendo o Governo de Queensland (Estados Unidos) e agricultores do condado de Gayndah que queriam banir o uso dos canhões por estar reduzindo a ocorrência de chuvas na região acabou concluindo que NÃO há evidências científicas de que os dispositivos sejam efetivos.
Conclusão
Há poucas evidências de que canhões anti granizo funcionem de fato, de maneira que o dispositivo ainda é amplamente contestado pela comunidade científica e pela Organização Meteorológica Mundial. Não há nenhum estudo estatisticamente significativo que comprove que o dispositivo é capaz de reduzir o prejuízo causado pelo granizo em propriedades agrícolas.
Logo, o investimento em equipamentos desse tipo na tentativa de mitigar a ocorrência de granizo ainda continua, majoritariamente, injustificado - ou, como colocado por Wieringa e Holleman, “um desperdício de esforço e dinheiro”.
Referências da notícia
Marcin Łoś et al. “Shock waves generators: From prevention of hail storms to reduction of the smog in urban areas — experimental verification and numerical simulations”. Journal of Computational Science, Volume 77, 2024.
Hao Li at al. “Examining the explosion effect of hail suppression operation using phased array radar observation data”. Sci Rep 15, 2025.
Wieringa, J., & Holleman, I. “If cannons cannot fight hail, what else?”. Meteorologische Zeitschrift, Volume 15, No. 6, 2006.
Rodríguez-Moreno, V.M. et al. “Heavy Rainfall Events in Selected Geographic Regions of Mexico, Associated with Hail Cannons”. Forecasting 2024, 6, 418-433.
“WMO Statement on Weather Modification”. Carta aberta da WMO disponível online.
"No evidence hail cannons effective". Resumo, ABC Report, disponível online.
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