A força invisível que move o mar: como a Lua e o Sol criam marés extremas

O que faz o nível do mar subir e descer diariamente? A resposta está na Lua e no Sol. Por trás de cada maré, há uma delicada dança gravitacional que molda o nível do mar.

Durante a maré baixa, rochas e áreas ficam expostas, sendo que o oceano as cobrirá novamente horas depois.
Durante a maré baixa, rochas e áreas ficam expostas, sendo que o oceano as cobrirá novamente horas depois.

O mar não se move aleatoriamente. Nem as marés são simplesmente uma questão de "subir e descer". A chave? A gravidade. Esse fluxo e refluxo é o resultado de um delicado equilíbrio entre a Terra, o Sol e a Lua. Uma dança cuja sincronia determina como os oceanos do nosso planeta se movem. Bem... os oceanos e também suas partes sólidas e gasosas, mas essa é outra história.

Primeiro, vamos falar sobre a gravidade. Essa força com que dois corpos se atraem depende de suas massas e da distância entre eles. Quanto maior a massa, mais forte a atração. Mas quanto mais distantes estiverem, mais fraca ela se torna. E é precisamente isso que define o quanto o Sol e a Lua podem influenciar nossos mares.

As marés são um fenômeno periódico que, na maioria das costas, segue um ciclo semi-diurno: ocorrem duas marés altas e duas marés baixas ao longo de um dia lunar, com duração aproximada de 24 horas e 50 minutos.


A Lua é a principal responsável pelas marés. Sua proximidade lhe confere uma vantagem, tornando sua força gravitacional mais forte. Mas o fator importante não é a intensidade dessa força, e sim o fato de ela ser exercida de forma desigual em todo o planeta. Essa diferença gera um campo de força (força de maré) que estica o oceano, criando duas protuberâncias: uma no lado voltado para a Lua e outra no lado oposto.

À medida que a Terra gira, todos os pontos do planeta passam por essas áreas onde o nível do oceano está ligeiramente mais alto. E nesse movimento, percebemos a alternância entre a maré alta e a maré baixa. Na maioria das costas, esse ciclo ocorre duas vezes por dia.

Na Baía de Fundy (Canadá), as marés podem ultrapassar os 15 metros. A faixa escura indica a altura que a água atinge regularmente.
Na Baía de Fundy (Canadá), as marés podem ultrapassar os 15 metros. A faixa escura indica a altura que a água atinge regularmente.

O Sol, apesar de sua enorme massa, tem menos influência devido à sua distância. Mas seu efeito não é desprezível. Ele pode ser responsável por aproximadamente 40% a 50% do efeito lunar. No entanto, a questão relevante aqui é o que acontece quando suas forças se combinam.

A união faz a força

Primeiramente, vamos esclarecer algo. As marés não implicam que a água se mova como uma onda atravessando o oceano. Como vimos, elas resultam de um equilíbrio entre as forças gravitacionais, a rotação da Terra e a capacidade do oceano de redistribuir sua massa. Este é um exemplo de como a Terra interage com seu ambiente astronômico.

Agora, quando os três corpos celestes (Sol, Terra e Lua) se alinham, suas forças gravitacionais se reforçam mutuamente. É exatamente isso que acontece durante a Lua Nova e a Lua Cheia, quando os três corpos formam uma linha quase reta. Esse alinhamento dá origem às marés vivas.

A atração combinada da Lua e do Sol intensifica o "estiramento" do oceano. Mesmo que puxem em direções opostas durante a Lua Cheia, seus efeitos não se anulam. Ambos puxam a Terra em duas direções, criando as duas áreas onde o nível do oceano está mais alto. E é nessa dupla deformação que as marés se sobrepõem.

Essa é a chave. Não se trata de a atração ser mais forte, mas sim de como essa gravidade é distribuída de forma desigual pelo planeta. Isso reforça as deformações do oceano. As marés altas ficam mais altas e as marés baixas ficam mais baixas. Em outras palavras, a amplitude das marés aumenta.

Por outro lado, durante as fases de quarto crescente e quarto minguante da Lua, a Lua e o Sol formam um ângulo próximo a 90° em relação à Terra. Nessas condições, ocorrem marés de quadratura, nas quais a diferença entre a maré alta e a maré baixa (sua amplitude) é menor.

Da região

Ao contrário da maioria dos lugares, alguns apresentam um padrão diurno, com uma única maré alta e baixa por dia, enquanto outros exibem um padrão misto. Essas variações resultam da interação entre o forçamento astronômico e as condições locais.

Sim, o alinhamento astronômico determina o ritmo, mas a intensidade real das marés varia de lugar para lugar ao redor do mundo. Depende de fatores locais como:

    • Forma da costa
    • Profundidade do fundo marinho
    • Geometria das bacias (baías, golfos, estuários)

    Existem regiões onde a configuração geográfica favorece a ressonância, quando o tempo que a água leva para oscilar dentro de uma baía ou golfo coincide com o ritmo da maré. Nesses locais, a água se acumula de forma mais eficiente, resultando em marés excepcionalmente altas.

    As ondas de tempestade ou marés altas estão associadas a sistemas meteorológicos intensos, como ciclones tropicais.
    As ondas de tempestade ou marés altas estão associadas a sistemas meteorológicos intensos, como ciclones tropicais.

    Por outro lado, em costas abertas ou extensas plataformas continentais, a energia das marés é distribuída de forma mais uniforme e as variações do nível do mar tendem a ser mais sutis. É por isso que, em alguns lugares, as marés atingem vários metros (como na Baía de Fundy, no Canadá, ou no Estuário dos Sete Rios, no Reino Unido), enquanto em outros são quase imperceptíveis.

    Nem tudo o que sobe é maré

    Outros fenômenos, como ventos, chuvas, cheias de rios, ciclones e tsunamis, frequentemente causam alterações no nível do mar. Mas essas variações, assim como os fenômenos que as causam, são ocasionais. E não podem ser classificadas como marés. Por quê? Porque não são causadas pela gravidade, nem possuem periodicidade.

    As marés são processos astronômicos regulares e previsíveis. Não, elas não dependem das condições climáticas. Mas interagem com elas e podem amplificar seus efeitos na costa. Compreender isso é fundamental. Quando coincidem com tempestades ou eventos extremos, podem aumentar o risco de inundações. Porque o nível do mar não parte do zero.

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