Água subterrânea no Brasil: estudo aponta perda em aquíferos estratégicos sob seca e uso intensivo
Estudo reconstrói 21 anos de água subterrânea no Brasil e mostra perdas em aquíferos estratégicos, com maior pressão em áreas afetadas por seca, irrigação, mineração e mudanças no uso da terra em regiões agrícolas e urbanas vulneráveis.

A água subterrânea brasileira acendeu um alerta climático e agrícola. Um novo estudo reconstruiu duas décadas de comportamento dos aquíferos no país e encontrou perda persistente de armazenamento em áreas do Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Brasil central, especialmente onde seca, irrigação e mudança no uso da terra atuam juntas.
O tema importa agora porque a água que não aparece no mapa do tempo sustenta cidades, lavouras, mineração e abastecimento em milhares de municípios. Mesmo com grandes reservas hídricas, o Brasil já convive com crises de água, estiagens prolongadas e maior dependência de aquíferos para manter produção agrícola e segurança hídrica.
Recarga depende da chuva e muda muito pelo país
O estudo estimou que a recarga média da água subterrânea no Brasil foi de 223 milímetros por ano entre 2002 e 2023 nas zonas de afloramento dos aquíferos. Isso representa cerca de 12% da chuva média anual nessas áreas e equivale a aproximadamente 1900 quilômetros cúbicos de água por ano entrando naturalmente nos sistemas subterrâneos.

Essa recarga, porém, não é uniforme. No mapa, a Amazônia aparece com grande variabilidade, especialmente perto de Manaus, onde rios e aquíferos se conectam com força.
No inverno, a redução da chuva, o escoamento subterrâneo e a evapotranspiração maior diminuem o armazenamento em grande parte do Brasil central.
Aquíferos do Centro e do Nordeste já mostram perdas
O levantamento identificou anos com recarga nula ou muito baixa em sistemas importantes, como Urucuia, Bauru-Caiuá, Serra Geral, área de afloramento do Guarani, Pantanal e Serra Grande. Em termos simples, isso significa que, em determinados anos hidrológicos, a água retirada ou perdida não foi recomposta pela chuva de forma suficiente.

As perdas mais preocupantes aparecem em áreas do São Francisco, Paraná, Atlântico Sudeste e Atlântico Leste, além de trechos do Nordeste e do Brasil central. No mapa de tendência, essas áreas surgem como manchas de declínio em meio a regiões mais estáveis ou até com ganho de armazenamento na Amazônia. Os principais pontos de atenção são:
- maior pressão em áreas agrícolas irrigadas;
- estiagens prolongadas reduzindo a reposição natural;
- avanço de mudanças no uso da terra em áreas de recarga;
- risco de bombeamento acima da capacidade de recuperação do aquífero.
El Niño, irrigação e mineração aumentam o risco
O El Niño de 2015/2016 marcou uma virada importante no comportamento de vários aquíferos. Após esse período, regiões que tinham tendência neutra ou levemente positiva passaram a mostrar queda no armazenamento subterrâneo.
Para o campo, o recado é direto: aquífero não deve ser tratado como reserva infinita. Em regiões de irrigação, abastecimento urbano ou mineração, a combinação de calor, menor chuva e bombeamento contínuo pode reduzir a margem de segurança nos próximos anos.
Acompanhar a precipitação prevista, a duração dos veranicos e a recuperação da umidade no solo ajuda produtores e gestores a planejar captação, plantio e irrigação com menos risco.
Referência da notícia
Two decades of human- and climate- induced groundwater storage shifts in Brazil. 3 de junho, 2026. Getirana, A., et. al.