O fenômeno El Niño altera o seu consumo de peixe: o impacto no mercado desencadeia volatilidade nos preços

Quando se ouve falar de El Niño, pensa-se em chuvas no Peru, secas na Austrália ou algum fenômeno distante. Mas seu impacto real está muito mais perto de casa, e acaba-se percebendo-o no mercado.

O fenômeno El Niño reduz a disponibilidade de alimentos e altera os padrões de migração dos peixes, impactando o que compramos e o que comemos.
O fenômeno El Niño reduz a disponibilidade de alimentos e altera os padrões de migração dos peixes, impactando o que compramos e o que comemos.

Há um fenômeno ocorrendo no Oceano Pacífico que afeta diretamente a disponibilidade de peixes, seus habitats, preços e a forma como chegam ao mercado. El Niño é uma fase do sistema climático conhecido como ENSO (El Niño-Oscilação Sul), que consiste em um aquecimento anômalo do Oceano Pacífico equatorial.

Esse aquecimento enfraquece os ventos alísios e reduz a ressurgência de águas frias e ricas em nutrientes, que são a base da produtividade marinha. Sem esse influxo, o fitoplâncton diminui, interrompendo toda a cadeia alimentar. Isso significa que menos nutrientes significam menos plâncton, menos plâncton significam menos peixes e menos peixes significam mudanças em todo o sistema pesqueiro global.

A criança muda tudo

Não devemos pensar que o El Niño simplesmente causa escassez. Na realidade, o que acontece é uma redistribuição do ecossistema marinho. Algumas espécies desaparecem de suas áreas habituais, outras migram para águas mais frias ou profundas, e outras ainda alteram sua abundância dependendo da região. O sistema não para, mas se reorganiza.

Portanto, o impacto no consumo não se resume apenas à quantidade de peixe disponível, mas também à sua localização e às condições em que chega ao mercado.

Dois peixes sofrendo o impacto

A anchova peruana é o exemplo mais claro. Ela depende diretamente das águas frias e ricas em nutrientes da Corrente de Humboldt, portanto, com o El Niño, sua disponibilidade diminui significativamente, fazendo com que ela se desloque para maiores profundidades e para áreas menos acessíveis à pesca.

As anchovas peruanas, essenciais para a alimentação na aquicultura, são as que mais sofrem com o impacto do El Niño, afetando diversos setores.
As anchovas peruanas, essenciais para a alimentação na aquicultura, são as que mais sofrem com o impacto do El Niño, afetando diversos setores.

É a espécie mais importante do mundo em termos de volume de pesca e a base de algo fundamental: a farinha e o óleo de peixe. Portanto, isso afeta não apenas a pesca direta, mas toda a cadeia industrial, especialmente na aquicultura, onde essa farinha de peixe é crucial.

Os atuns também são afetados, embora de forma diferente. Eles não estão desaparecendo, mas o aumento da temperatura está fazendo com que mudem suas rotas migratórias, deslocando-se para outras áreas ou para maiores profundidades. Isso complica sua captura e leva a uma maior variabilidade na oferta e nos preços.

A mudança que altera o mercado

Quando o oceano muda, o mercado muda. Menos estabilidade nas capturas gera volatilidade de preços, dependência de importações e substituição de espécies.

Quase não notamos, mas o mercado mudou.
Quase não notamos, mas o mercado mudou.

No entanto, os consumidores raramente associam isso ao clima ou ao tempo. Eles percebem como um aumento de preço ou a ausência de um produto regular.

Mas a origem é outra: o clima está condicionando a economia alimentar sem que isso seja percebido diretamente.

Adaptação da indústria

Os peixes nem sempre são iguais. Sua composição depende do ambiente em que vivem, assim como acontece com todos os animais. Em ambientes quentes, eles têm menos gordura porque não precisam se proteger do frio, e vice-versa.

Quando o El Niño altera esse ambiente, aspectos como o teor de gordura que mencionamos mudam, assim como a textura e o tamanho. Isso força a indústria a adaptar processos, ajustar formulações e trabalhar com uma matéria-prima mais variável.

Na prática, isso significa que o clima afeta não apenas a quantidade disponível, mas também a qualidade tecnológica do produto.

O consumidor: adapta-se sem se dar conta disso

Visto de fora, parece que tudo está igual. Mas não está.

Os consumidores mudam sem se darem conta: escolhem espécies diferentes, pagam mais ou, em alguns casos, reduzem o consumo. São ajustes silenciosos que respondem ao que o sistema permite em determinado momento.

Não é uma decisão consciente. É uma adaptação. E não há outra maneira.