O calor da Antártica está forçando os pinguins a anteciparem sua época de reprodução, o que alarma cientistas

Um estudo de monitoramento revelou uma mudança recorde na época de reprodução de três espécies de pinguins antárticos, ameaçando interromper seu acesso a alimentos e aumentar a competição entre as espécies.

Os pinguins-de-adélia são uma das espécies mais afetadas pela antecipação da época de reprodução.
Os pinguins-de-adélia são uma das espécies mais afetadas pela antecipação da época de reprodução.

No Dia Mundial da Conscientização sobre os Pinguins (20 de janeiro), a Penguin Watch e a Universidade de Oxford divulgaram os resultados de uma década de monitoramento de três espécies de pinguins que habitam a Antártica: o pinguim-de-adélia (Pygoscelis adeliae), o pinguim-de-barbicha (P. antarcticus) e o pinguim-gentoo ou pinguim-papua (P. papua), mostrando que as mudanças climáticas estão alterando drasticamente seu comportamento reprodutivo.

Segundo a pesquisa, publicada na revista Journal of Animal Ecology, o impacto mais notável é um avanço recorde nas épocas de reprodução, impulsionado principalmente pelo aumento das temperaturas e pelas mudanças no gelo marinho.

Esse avanço pode durar até três semanas, o que coloca sua sobrevivência em risco, pois pode causar um desequilíbrio na disponibilidade de presas e aumentar a competição entre as espécies.

Adaptabilidade desigual: vencedores e perdedores

De acordo com o estudo, as consequências variam dependendo da capacidade de adaptação de cada espécie. Os pinguins-gentoo, por exemplo, sofreram a mudança mais drástica, antecipando sua época de reprodução em uma média de 13 dias por década, e até 24 dias em algumas colônias. Essa é a mudança fenológica mais rápida já registrada em qualquer ave. No entanto, eles parecem ser os mais beneficiados.

Os pinguins-gentoo são uma espécie generalista, o que significa que não dependem exclusivamente de um recurso ambiental ou alimentar específico para sobreviver, e as condições cada vez mais subpolares da Península Antártica parecem favorecê-los.

Os pinguins-gentoo iniciaram sua temporada de reprodução mais cedo, até 24 dias antes do previsto. Crédito: Ignacio Juarez Martinez.
Os pinguins-gentoo iniciaram sua temporada de reprodução mais cedo, até 24 dias antes do previsto. Crédito: Ignacio Juarez Martinez.

Mas os pinguins-de-adélia e os pinguins-de-barbicha são especialistas polares, dependendo do gelo e do krill, respectivamente; portanto, as mudanças nas condições são prejudiciais para eles. Ambas as espécies anteciparam sua época de reprodução em uma média de 10 dias.

“Os pinguins desempenham um papel fundamental nas teias alimentares da Antártida, e a perda de diversidade aumenta o risco de um colapso generalizado do ecossistema”, disse Ignacio Juárez Martínez, pesquisador da Universidade de Oxford e autor principal do estudo, em um comunicado.

Monitoramento tecnológico diante de um futuro incerto

Os pesquisadores examinaram as mudanças na reprodução dos pinguins entre 2012 e 2022, levando em consideração o seu assentamento na colônia, ou seja, a primeira data em que os pinguins ocuparam continuamente uma área de nidificação.

À esquerda, um pinguim-de-adélia com seu filhote. À direita, um pinguim-de-barbicha com seu filhote. Crédito: Ignacio Juarez Martinez.
À esquerda, um pinguim-de-adélia com seu filhote. À direita, um pinguim-de-barbicha com seu filhote. Crédito: Ignacio Juarez Martinez.

Eles utilizaram 77 câmeras com time-lapse para monitorar 37 colônias na Antártica e em algumas ilhas subantárticas; isso garante que as descobertas sejam relevantes para a espécie como um todo e não apenas para populações específicas.

No geral, o aquecimento nos locais das colônias está ocorrendo quatro vezes mais rápido do que a média da Antártica (0,3°C/ano contra 0,07°C/ano). É também um dos habitats que aquecem mais rapidamente na Terra, representando riscos críticos para todas as espécies.

Pinguins-de-barbicha.
Pinguins-de-barbicha.

Ainda não está claro se a antecipação da época de reprodução é uma adaptação bem-sucedida ou se causará um desequilíbrio ecológico na disponibilidade de presas. Também não está claro quanta resiliência essas espécies serão capazes de demonstrar se as temperaturas continuarem aumentando no ritmo atual.

“Como os pinguins são considerados um indicador das mudanças climáticas, os resultados deste estudo têm implicações para espécies em todo o planeta”, destacou Fiona Jones, pesquisadora da Universidade de Oxford e coautora do estudo.

"É necessário um monitoramento contínuo para entender se esse avanço recorde nas temporadas de reprodução dessas espécies de pinguins está afetando seu sucesso reprodutivo", acrescentou Jones.

Referências da notícia

Record phenological responses to climate change in three sympatric penguin species. 19 de janeiro, 2026. Martinez, et al.

A two-week leap in breeding: Antarctic penguins’ striking climate adaptation. 20 de janeiro, 2026. University of Oxford.