Estudo da USP revela que milho sustentou grandes aldeias pré-coloniais no Cerrado
Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade de São Paulo revelou que o cultivo intensivo do milho sustentou grandes aldeias pré-coloniais no Cerrado brasileiro entre os séculos 9 e 17.

Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e divulgado na revista científica Science Advances descobriu que sociedades pré-coloniais (antes da colonização) no Cerrado brasileiro prosperaram cultivando milho em sistemas diversificados.
O consumo do cereal até foi comparado ao de populações maias ou andinas. E de acordo com os pesquisadores, esta é a primeira vez que conseguem demonstrar no Brasil o papel central do milho na subsistência dessas populações.
O estudo e suas descobertas
O estudo durou mais de 10 anos, e durante esse tempo os pesquisadores analisaram a composição química (isótopos estáveis de carbono, nitrogênio e oxigênio) de diversos ossos e dentes humanos (colágeno ósseo e esmalte dentário) em 37 sítios arqueológicos do Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica no Brasil.
Estas amostras datam, em média, de um período entre 1.100 e 400 anos atrás e foram obtidas através de escavações e de coleções arqueológicas montadas desde os anos 1970.
Além disso, também foram examinadas amostras de fauna local, essenciais para estabelecer parâmetros de comparação capazes de distinguir o consumo de diferentes alimentos.

Segundo Eliane Chim, pesquisadora do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP) e autora principal do estudo, “como diferentes alimentos têm assinaturas isotópicas distintas, essas marcas ficam ‘registradas’ nos tecidos do corpo e podem ser usadas para reconstruir a alimentação de populações antiga (...)”.
As análises sugerem que as amostras pertencem a populações do Holoceno tardio, período que compreende os últimos 4.200 anos da história geológica, sendo provenientes de aldeias das tradições cerâmicas Aratu – sociedades das grandes aldeias a céu aberto – e Una – produtores de uma cerâmica pequena e simples, de bases arredondadas, geralmente encontrada em abrigos rochosos.

As sociedades pré-coloniais abrigavam aldeias de até 2 mil habitantes, e até então, acreditava-se que esses dois grupos sociais viviam da caça e da coleta de frutos nativos, com hábitos predominantemente móveis de caçadores-coletores. Então este estudo veio para desafiar esta ideia anterior.
Eles mostraram que o Cerrado prosperou com agricultura diversificada baseada no milho antes da colonização, comprovando pela primeira vez no Brasil o papel central do cereal na dieta dessas populações, e em patamares comparáveis aos de sociedades andinas e maias.
Ambas as aldeias das populações Aratu e Una consumiam o milho, com esta última tendo uma alimentação mais diversa. Mas no caso da Aratu o cereal era uma fonte primordial de subsistência.
As demais análises sobre outros alimentos não permitiram afirmar exatamente quais outros vegetais eram consumidos pelos grupos, mas evidências botânicas encontradas nos próprios sítios arqueológicos dão indícios de uma ampla diversidade de alimentos, como, por exemplo, feijão, amendoim, mandioca, abóbora e frutas.
Referência da notícia
Redação Globo Rural. (2026). Estudo aponta papel central do milho para povos pré-coloniais do Cerrado.
Chim, E. et al. (2026). Maize-based polyculture, not monoculture, sustained precolonial societies in the Brazilian Cerrado.