Entenda a onda de calor na Patagônia

Após um janeiro com temperaturas abaixo da média climatológica no extremo sul do continente, fevereiro começou com calor recorde em várias cidades do Chile e da Argentina localizadas na Patagônia.

Bruno César Capucin Bruno César Capucin 10 Fev. 2019 - 12:36 UTC
Onda de calor na Patagônia gera recordes de temperatura. (Fonte: Diario Clarín)

Janeiro de 2019 apresentou padrões anômalos da circulação de grande escala na América do Sul, cujos reflexos foram sentidos principalmente no Cone-Sul do continente, assim como nas regiões tropicais do Brasil. Em latitudes mais altas, a Patagônia experimentou temperaturas abaixo da média climatológica no mês. No entanto, isto mudou drasticamente no começo de fevereiro, onde se registrou temperaturas altas para a época entre os dias 3 e 4.

Segundo a Meteorologia do Chile, alguns locais do país tiveram temperaturas sem precedentes, não observadas há pelo menos 100 anos. Valdivia por exemplo, registrou 38,5°C, valor mais alto dos últimos 98 anos. Já Balmaceda e Puerto Aysén alcançaram 33,9°C e 35,3°C, respectivamente, sendo o dia mais quente da história em ambas cidades chilenas.

Do lado oriental dos Andes, as terras argentinas também bateram recorde de calor. Perito Moreno (Província de Santa Cruz) e Trelew (Província de Chubut) registraram juntas 35,6°C. Em Río Grande (Província da Terra do Fogo, Antártica e Ilhas do Atlântico Sul), o valor de 30,8°C superou o recorde de 28,6°C do ano de 1962. Durante à tarde da última segunda-feira (dia 4), todas as províncias patagônicas atingiram os 30°C, de acordo com o Serviço Nacional de Meteorologia da Argentina.

O que explica a onda de calor?

Nos últimos dias de janeiro, a corrente de jato assumiu um aspecto mais meridional (norte-sul) do que zonal (oeste-leste), fato atribuído ao desenvolvimento de dois sistemas de tempestades no Pacífico Sul em 60°S de latitude. O ganho de amplitude norte-sul do jato equivale a intensificação de cristas e vales de nível superior, que afetam a evolução dos sistemas de alta e baixa pressão em superfície. Vales são responsáveis por tempo mais frio e úmido, e as cristas por condições mais quentes e secas.

Quanto mais amplificada for a corrente de jato com suas cristas e vales, mais lento torna-se o deslocamento dos sistemas de pressão em superfície. Portanto, ocorre uma persistência no padrão de tempo. A crista de grande amplitude induzida a jusante do Pacífico Sul, esteve associada a um sistema de alta pressão que transportou ar mais quente do norte para a Patagônia ao longo dos Andes, além de propiciar menos nuvens no céu, elementos que elevam a temperatura do ar.

No caso do Chile, fatores locais como a presença dos Andes favoreceu ainda mais o calor, sobretudo no dia 3. Isso porque ventos de componente leste (perpendiculares a Cordilheira) associados ao anticiclone, subiram as montanhas do lado argentino para descerem do lado chileno. Este tipo de escoamento sente o efeito da compressão adiabática, fenômeno que aquece o ar a uma taxa de 1ºC a cada 100 metros descidos. Logo, as altas temperaturas registradas nesse país tiveram auxílio desse escoamento quente.

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