Comunidade japonesa na Amazônia torna-se referência mundial em sustentabilidade agrícola

Como o legado de imigrantes japonês impulsionou um sistema agroflorestal inovador que combina produção contínua de alimentos, conservação da floresta e impacto socioeconômico na Amazônia e no mundo.

O engenheiro agrônomo Jailson Takamatsu cultiva dendê, açaí e cacau em sistema agroflorestal. Crédito: Fernando Martinho
O engenheiro agrônomo Jailson Takamatsu cultiva dendê, açaí e cacau em sistema agroflorestal. Crédito: Fernando Martinho

O município de Tomé-Açu, no interior do Pará, transformou-se em um modelo global de agricultura sustentável graças à atuação de uma comunidade de imigrantes japoneses e seus descendentes. Chegando à região a partir de 1929, esses agricultores enfrentaram as adversidades da floresta amazônica e, com o tempo, desenvolveram uma abordagem única que hoje é reconhecida internacionalmente como um caminho para conciliar produção agrícola, preservação ambiental e melhoria da qualidade de vida local.

A comunidade japonesa em Tomé-Açu passou por grandes desafios desde os primeiros anos de colonização. Inicialmente, os imigrantes lutaram para adaptar técnicas agrícolas de origem temperada às condições tropicais da Amazônia, sofrendo com o fracasso de culturas como cacau e arroz. Após a Segunda Guerra Mundial, o cultivo da pimenta-do-reino trouxe prosperidade e tornou a região uma das maiores produtoras mundiais da especiaria — até ser devastada nos anos 1960 por uma praga que dizimou as plantações.

Diante da crise provocada pela fusariose, os agricultores iniciaram, na década de 1970, uma transição que viria a revolucionar a forma de produzir na Amazônia. Inspirados nos princípios da diversidade da floresta e nas práticas agrícolas dos povos ribeirinhos, eles começaram a experimentar o cultivo conjunto de múltiplas espécies em sistemas que imitavam a floresta natural.

Do “diamante negro” ao mosaico verde

Esse processo resultou no Sistema Agroflorestal de Tomé-Açu (SAFTA), um modelo que integra culturas alimentares e florestais em uma mesma área, promovendo produção contínua de alimentos, recuperação de solos degradados e conservação ambiental. Em vez de depender de uma única cultura, agricultores agora combinam cacau, açaí, cupuaçu, banana, seringueira, dendê e outras espécies, criando uma floresta cultivada que gera renda ao longo do ano.

Casarão de família japonesa em Tomé-Açu erguido nos anos de bonança da pimenta-do-reino. Fonte: BBC Brasil
Casarão de família japonesa em Tomé-Açu erguido nos anos de bonança da pimenta-do-reino. Fonte: BBC Brasil

A prática não apenas restaurou a paisagem econômica da região, mas também transformou Tomé-Açu em um laboratório vivo de sustentabilidade. As agroflorestas cobrem milhares de hectares e servem como referência para agricultores no Brasil e no exterior. A cooperativa local — Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu (CAMTA) — desempenha papel central nessa trajetória, promovendo a adoção do SAFTA, apoiando pequenos produtores e agregando valor aos produtos com processamento industrial de polpas e outros derivados exportados para mercados como Japão, Alemanha e Estados Unidos.

Além do impacto econômico, o sistema tem forte contribuição ambiental: a diversidade de espécies aumenta a resiliência às mudanças climáticas, reduz a necessidade de desmatamento de novas áreas e melhora a qualidade do solo, aproximando a agricultura de um modelo mais equilibrado com a conservação da floresta.

Sustentabilidade que inspira políticas e redes

O SAFTA tem atraído atenção de pesquisadores, gestores públicos e organizações internacionais como exemplo de tecnologia social capaz de impulsionar o desenvolvimento sustentável na Amazônia. Na COP30, seminários e apresentações destacaram o modelo de Tomé-Açu como vetor de inovação para sistemas agroflorestais no século XXI, fortalecendo a ideia de que é possível produzir alimentos enquanto se preserva a floresta em pé.

Parcerias com instituições como a Embrapa, a Agência de Cooperação Internacional do Japão (JICA) e o apoio de organizações como Fundo Vale têm reforçado a difusão de tecnologias agroflorestais e o desenvolvimento de práticas inovadoras, como a integração de palmáceas em sistemas agroflorestais.

Hoje, Tomé-Açu é mais do que um caso de sucesso regional: é um símbolo de como a integração de saberes tradicionais e ciência agrícola pode oferecer soluções escaláveis para os desafios da segurança alimentar, mudanças climáticas e conservação de biomas tropicais.

Referências da notícia

O Povo. Comunidade japonesa na Amazônia torna-se referência mundial em sustentabilidade agrícola. 2025