Soja, safrinha e floresta: estudo liga lucro à valorização da terra e desmatamento em Mato Grosso
Pesquisa em Mato Grosso relaciona lucros da soja e do milho safrinha à valorização da terra e ao avanço do desmatamento na Amazônia do estado, sugerindo que ciclos de crédito podem acelerar a abertura de áreas rapidamente.

A dobradinha soja + milho safrinha é um motor econômico no Centro-Oeste: duas colheitas no mesmo ciclo, mais caixa e mais investimento. Um estudo recente, porém, chama atenção para um efeito colateral possível quando a rentabilidade dispara: a terra valoriza, e a pressão sobre a floresta pode aumentar.
Lucro, aqui, resume o resultado do sistema produtivo ao longo do tempo, influenciado por preços, produtividade, custos e câmbio. Com dados de 2010 a 2024, os autores encontraram uma relação estatística consistente, com efeitos que podem se espalhar por alguns anos.
O mercado de terras
A lógica é simples. Se a renda esperada por hectare sobe, a terra tende a ficar mais cara, porque passa a embutir um retorno maior no futuro. Esse salto pode acelerar compra e venda, especulação e abertura de novas áreas onde a governança é mais frágil, sobretudo em bordas de expansão.

No caso mato-grossense, o sistema soja–safrinha também aumenta a capacidade de “fazer caixa” no mesmo ano e pode facilitar investimentos na produção. O estudo relaciona esse ciclo ao avanço do etanol de milho no estado, que reforça a demanda e a atratividade econômica do milho de segunda safra, alimentando a valorização do hectare.
Números que chamam atenção
Os autores estimaram o tamanho dessas associações com modelos econômicos e ambientais. Em linguagem direta, eles mediram como mudanças no lucro setorial aparecem associadas ao preço das terras e ao desmatamento, considerando que decisões tomadas hoje podem ter impacto nos anos seguintes.
- Um aumento de 1% no lucro setorial se associou a +0,48% no preço de terras agrícolas e +0,27% no preço de pastagens.
- O mesmo 1% de aumento no lucro se associou a +1,26% de perda de floresta na Amazônia de Mato Grosso.
- Em um modelo com efeito distribuído em três anos, cada R$ 1 bilhão a mais de lucro ano a ano se associou a +11,9 a +13,4 km² de desmatamento adicional ao longo de três anos.
- No cenário “sem o lucro extra da safrinha”, a estimativa aponta contribuição de cerca de 343–390 km² de perda florestal entre 2010 e 2024.
Há ainda um recorte que ajuda a visualizar a escala: os picos de 2020–2021 foram associados a cerca de 320–340 km² adicionais, algo em torno de 8% da perda observada nesses anos. Vale ler com cuidado: associação não é uma “prova única” de causa. A mensagem é que picos de rentabilidade podem elevar o incentivo para expandir área e mudar uso do solo, especialmente onde fiscalização e transparência fundiária são limitadas.
Implicações no contexto brasileiro
A utilidade prática do estudo é iluminar um elo pouco discutido: o mercado de terras. Fiscalização na ponta e cadeias produtivas mais rastreáveis continuam essenciais, mas o trabalho sugere que, em fases de lucro alto, é preciso redobrar controle sobre grilagem, regularizações irregulares e valorização especulativa em áreas sensíveis da Amazônia de Mato Grosso.
Ao mesmo tempo, há espaço para direcionar ganhos para dentro da área já aberta. O desafio é alinhar crédito, seguro e incentivos para intensificação sustentável e recuperação de pastagens, sem empurrar a expansão para a fronteira. Com monitoramento por satélite, transparência fundiária e regras claras, produtividade pode crescer com menos pressão sobre a floresta, e com mais previsibilidade para quem produz.
Referência da notícia
High profits from soybean-corn agriculture are associated with increased land prices and deforestation rates in Mato Grosso’s Amazon forests. 3 de fevereiro, 2026. Peter, R., Arima, E.