Pesquisadores buscam restaurar recifes de coral dizimados por ondas de calor

Ondas de calor recordes provocam branqueamento sem precedentes, mobilizam cientistas no Brasil e no exterior e impulsionam pesquisas que vão de monitoramento nacional a probióticos para tentar salvar os recifes.

Análises genéticas e aplicação de probióticos são algumas das ferramentas para tentar proteger ecossistema essencial na cadeia alimentar do oceano. Crédito: Danielle Ihde
Análises genéticas e aplicação de probióticos são algumas das ferramentas para tentar proteger ecossistema essencial na cadeia alimentar do oceano. Crédito: Danielle Ihde

Uma onda de calor oceânica em 2024 provocou mortalidade extensa de recifes de coral em diferentes regiões do planeta. No Brasil, os impactos mais severos foram registrados na costa do Nordeste, segundo artigo publicado em setembro de 2025 na revista Coral Reefs. O evento expôs a vulnerabilidade desses ecossistemas ao aquecimento global e reacendeu o alerta entre especialistas.

“Quando o branqueamento aparece, muitas vezes só conseguimos documentar”, afirma o oceanógrafo Miguel Mies, do Instituto Oceanográfico da USP, primeiro autor do estudo e coordenador de planejamento do projeto Coral Vivo. O branqueamento ocorre quando os corais perdem as algas microscópicas que lhes fornecem energia, tornando-se brancos e frágeis.

Cenário semelhante foi observado no mar Vermelho, onde a bióloga brasileira Raquel Peixoto, da Universidade Rei Abdullah, coordena pesquisas em um laboratório subaquático conhecido como Vila de Probióticos de Corais. Ali, as altas temperaturas prolongadas também deixaram extensas áreas devastadas.

Ponto de não retorno climático

A gravidade do fenômeno foi reforçada pelo relatório Global Tipping Points 2025, que aponta que os corais já ultrapassaram o limite térmico considerado seguro. Com o aquecimento médio global em 1,4 °C, a mortalidade em massa torna-se provável, ameaçando organismos essenciais para a biodiversidade marinha.

Os recifes funcionam como verdadeiros engenheiros de ecossistemas, criando abrigo e alimento para milhares de espécies. Estima-se que centenas de milhões de pessoas dependam deles, direta ou indiretamente, para alimentação e renda, sobretudo por meio da pesca.

Mesmo cenários mais otimistas preocupam. Segundo o relatório, ainda que o aquecimento fosse limitado a 1,5 °C, os corais de águas quentes teriam 99% de risco de colapso funcional, uma meta que muitos cientistas já consideram inalcançável.

Monitoramento inédito no Brasil

Após um episódio severo em 2019, que atingiu inclusive Abrolhos, pesquisadores brasileiros criaram um protocolo nacional de monitoramento. O programa reúne cerca de 90 cientistas de 20 instituições e cobre mais de 2.700 quilômetros do litoral, do Ceará a Santa Catarina.

Branqueamento e mortalidade em massa de recifes de coral vêm sendo detectados desde os anos 1990. Crédito: Domínio Público/Rawpixel
Branqueamento e mortalidade em massa de recifes de coral vêm sendo detectados desde os anos 1990. Crédito: Domínio Público/Rawpixel

Durante a onda de calor de 2024, o grupo registrou até 96% de branqueamento no Nordeste. Em Maragogi, Alagoas, quase 90% dos corais morreram, com destaque para os corais-de-fogo, importantes na formação de habitats marinhos.

A composição das espécies ajuda a explicar as diferenças regionais. No Sul e Sudeste, o coral-cérebro mostrou maior tolerância térmica, alimentando estudos para identificar linhagens mais resistentes e orientar futuras ações de conservação.

Probióticos e esperança evolutiva

No mar Vermelho, pesquisadores testam probióticos capazes de reforçar a microbiota dos corais e reduzir o estresse térmico. Os suplementos microbianos têm mostrado potencial para aumentar a sobrevivência durante ondas de calor prolongadas.

Outros cientistas apostam em uma perspectiva evolutiva. Bancos de corais de águas profundas, menos afetados pelas mudanças climáticas, podem abrigar linhagens resistentes que persistem há centenas de milhões de anos, embora não formem recifes turísticos.

Apesar das iniciativas, especialistas concordam que a solução definitiva é política. “Mudamos o clima, agora o clima muda tudo”, resume Clovis Castro, do Instituto Coral Vivo. Sem ações globais rápidas para conter o aquecimento, o futuro dos recifes permanece incerto.

Referências da notícia

Nexo Jornal. Pesquisadores buscam restaurar recifes de coral dizimados por ondas de calor. 2026