Laranja-doce: áreas adequadas podem encolher 30% até 2100; entenda

Estudo projeta redução de 30% nas áreas mundialmente adequadas à laranja-doce até 2100, com forte retração no Brasil e expansão na China e Europa, mas não estima diretamente perdas de produção comercial ou abandono dos pomares atuais.

As mudanças no clima podem reduzir as áreas adequadas ao cultivo comercial de laranja-doce e deslocar parte da produção para novas regiões.
As mudanças no clima podem reduzir as áreas adequadas ao cultivo comercial de laranja-doce e deslocar parte da produção para novas regiões.

As áreas ambientalmente adequadas à produção comercial de laranja-doce podem diminuir cerca de 30% no mundo até o fim do século, caso se concretize o cenário de emissões muito elevadas SSP5-8.5. A projeção, publicada na Scientific Reports, considera a influência conjunta do clima, do solo e do relevo sobre a citricultura mundial.

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A retração seria ainda maior nas terras classificadas com aptidão moderada ou alta: 48,6%. O resultado não significa que a produção mundial cairá na mesma proporção, mas indica que muitos pomares poderão enfrentar condições menos favoráveis. Como laranjeiras permanecem produtivas durante anos, decisões tomadas agora sobre localização, porta-enxertos e irrigação terão consequências duradouras.

Modelo cruzou 3.350 registros com clima e solo

Os pesquisadores empregaram o MaxEnt, modelo que reconhece as condições ambientais associadas à presença de uma espécie ou cultura. Foram utilizados 3.350 pontos de ocorrência da laranja-doce, separados entre treinamento e teste, além de 11 variáveis climáticas, edáficas e topográficas.

As projeções combinaram cinco modelos climáticos e quatro trajetórias de emissões.

O período de referência climática foi 1970–2000, enquanto o futuro foi dividido em quatro intervalos: 2021–2040, 2041–2060, 2061–2080 e 2081–2100. Todas as camadas foram padronizadas para resolução espacial aproximada de cinco quilômetros.

No cenário SSP5-8.5, a área brasileira potencialmente adequada à laranja-doce pode cair 61,5% até o fim do século, de 268,65 para 103,51 milhões de hectares.
No cenário SSP5-8.5, a área brasileira potencialmente adequada à laranja-doce pode cair 61,5% até o fim do século, de 268,65 para 103,51 milhões de hectares.

A temperatura mínima do mês mais frio respondeu por 47,6% da contribuição ao modelo, aparecendo como principal fator de distribuição. Em seguida vieram teor de argila, com 27,6%, pH do solo, com 8,1%, e precipitação anual, com 4%. O desempenho foi considerado robusto, com AUC, (Área Sob a Curva, ou Area Under the Curve) é uma medida usada en inteligência artificial e estadística, de 0,87

Brasil perde aptidão enquanto China e Europa ganham espaço

No SSP5-8.5 (cenário de projeção pessimista de altas emissões), entre 2081 e 2100, a área mundial adequada passaria de 2,61 bilhões para 1,82 bilhão de hectares, redução de 790,88 milhões de hectares. A mudança não seria uniforme: regiões tropicais tradicionais perderiam espaço, enquanto áreas mais frias, elevadas ou situadas em latitudes maiores poderiam se tornar ambientalmente favoráveis.

  • Brasil: redução de 61,5% na área territorial potencialmente adequada.
  • Índia: contração projetada de 50,7% até o fim do século.
  • China: expansão de 67,6%, principalmente em novas faixas de latitude média.
  • Europa: crescimento aproximado de 82%, equivalente a 63,77 milhões de hectares.
O Brasil ocupa posição central na citricultura mundial, com a laranja sustentando uma ampla cadeia de produção, processamento de suco, exportações e geração de empregos.
O Brasil ocupa posição central na citricultura mundial, com a laranja sustentando uma ampla cadeia de produção, processamento de suco, exportações e geração de empregos.

No Brasil, o domínio adequado cairia de 268,65 para 103,51 milhões de hectares. A aptidão moderada ou alta recuaria de 9,4% para 1,5% do território, atingindo o interior paulista, o Triângulo Mineiro, o sul de Minas Gerais, o Paraná e partes de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Dentro das áreas atualmente cultivadas, a retração estimada é menor, mas ainda expressiva: 45,5%.

Aptidão climática não equivale a produção nem abandono de pomares

O modelo indica onde clima e solo se parecem com os ambientes atualmente associados à citricultura comercial; ele não calcula diretamente produtividade, preço ou sobrevivência de cada pomar. A resolução aproximada de cinco quilômetros também pode ocultar microclimas, irrigação e diferenças de relevo importantes para uma propriedade.

Greening, ondas de calor simultâneas à seca, variedades e respostas fisiológicas ao CO₂ não foram incorporados.

Por isso, os resultados funcionam como orientação de longo prazo, não como sentença para regiões produtoras. Eles podem apoiar zoneamento, escolha de porta-enxertos, melhoramento genético e investimentos em água e proteção contra extremos.

Antes de orientar mudanças definitivas, novos trabalhos deverão integrar modelos fisiológicos, doenças, custos e manejo, tanto nos países que perdem aptidão quanto nos novos corredores projetados.

Referência da notícia

Lorençone, P.A., Lorençone, J.A., de Oliveira Aparecido, L.E. et al. (2026). Global agronomic suitability of Citrus sinensis for commercial production under CMIP6 climate scenarios.