Ferrugem do café: incidência chegou a 83% em lavoura de PE, revela estudo

Estudo em quatro lavouras de Pernambuco identificou um calendário regional para a ferrugem do café. Chuvas e umidade acompanharam o avanço da doença, reforçando a importância de adaptar o manejo às condições locais de cada área produtora.

O acompanhamento das folhas ajuda a identificar o avanço de doenças e orientar o manejo do cafeeiro conforme as condições climáticas locais.
O acompanhamento das folhas ajuda a identificar o avanço de doenças e orientar o manejo do cafeeiro conforme as condições climáticas locais.

A ferrugem do cafeeiro apresentou um calendário próprio nas serras de Pernambuco: começou geralmente entre abril e maio e ganhou força no segundo semestre. Em uma das quatro lavouras acompanhadas em Brejão, a doença atingiu 83% das folhas avaliadas em agosto de 2019.

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O estudo, publicado na Australasian Plant Pathology, mostra por que conhecer o clima local importa para proteger a produção. O trabalho reúne pesquisadores de duas universidades federais de Pernambuco.

Causada pelo fungo Hemileia vastatrix, a ferrugem provoca queda precoce das folhas e compromete a capacidade da planta de produzir.

Nas regiões tradicionais do Sudeste, a literatura citada pelos pesquisadores descreve outro ritmo de avanço. Por isso, transferir automaticamente o calendário de controle dessas áreas para o Agreste pernambucano pode deixar o manejo desalinhado com a evolução regional da doença.

Quatro lavouras revelam quando a doença avança

Os pesquisadores acompanharam mensalmente quatro áreas comerciais de Catuaí Vermelho IAC 144 entre abril de 2018 e novembro de 2019. Em cada visita, coletaram 200 folhas por lavoura, distribuídas entre 20 plantas.

A incidência correspondeu à proporção de folhas com lesões produzindo esporos, estruturas que disseminam o fungo. Assim, o valor de 83% indica folhas afetadas na amostra, sem representar perda equivalente de colheita.

A coleta de folhas permite acompanhar a ocorrência de doenças e sua relação com as condições climáticas.
A coleta de folhas permite acompanhar a ocorrência de doenças e sua relação com as condições climáticas.

Os picos variaram conforme a área e o ano, aparecendo entre julho e outubro, embora os autores destaquem agosto e setembro como período central. A maior intensidade ocorreu aproximadamente quatro a seis meses após o início das chuvas.

Essa sequência ajuda a compreender por que o risco permanece relevante depois que a estação chuvosa já está estabelecida, exigindo acompanhamento durante vários meses.

Chuvas e umidade ajudam a explicar o calendário

Durante o acompanhamento, as temperaturas médias mensais variaram aproximadamente entre 19 e 24 °C, e a umidade relativa ficou entre 73% e 91%. Os totais de precipitação apresentados foram de 783 mm em 2018 e 778 mm em 2019. Apesar dos volumes semelhantes, a concentração das chuvas diferiu: de março a julho no primeiro ano e de maio a agosto no segundo.

A chuva favorece o desenvolvimento do cafeeiro, mas também pode criar condições para o avanço de doenças nas folhas.
A chuva favorece o desenvolvimento do cafeeiro, mas também pode criar condições para o avanço de doenças nas folhas.

Segundo a interpretação dos autores, a combinação de chuva frequente, umidade elevada e temperaturas favoráveis contribuiu para as infecções. A água sobre as folhas permite a germinação dos esporos. Entretanto, o acompanhamento não isolou experimentalmente o efeito de cada variável, nem demonstrou que a chuva, sozinha, determina os surtos. Para interpretar os resultados, três distinções são essenciais:

  • O calendário observado pertence às lavouras de Brejão estudadas, sem representar automaticamente todo o Nordeste.
  • A incidência mede quantas folhas apresentam a doença; a severidade descreve a extensão da área foliar afetada.
  • Os dados meteorológicos e sanitários são históricos e não constituem previsão para a safra atual.

Controle local pode orientar pesquisas em outras regiões

Em outro ensaio, realizado em uma lavoura, sete tratamentos foram comparados com quatro repetições. O flutriafol aplicado ao solo em abril, sozinho ou com complemento foliar, apresentou os melhores resultados de controle. Separadamente, a avaliação de 18 genótipos durante 26 meses identificou diferenças de resistência.

Obatã e Katipó ficaram entre os materiais mais resistentes, indicando possibilidades para combinar escolha de plantas e manejo adaptado.

Esses resultados não mediram diretamente aumento de produtividade ou economia, e a resistência pode mudar com o surgimento de novas raças do fungo.

A contribuição para outras regiões cafeeiras do mundo é uma hipótese de manejo a testar: ajustar as intervenções à sazonalidade local. Estudos em mais localidades e safras poderão verificar a consistência dos resultados, comparar custos e avaliar se o controle observado se traduz em benefícios para a colheita.

Referência da notícia

Lino, J.B., do Livramento Freitas-Lopes, R., Capucho, A.S. et al. (2026). Seasonal dynamics of coffee leaf rust in highland areas in the Brazilian Northeast and its management using fungicides and resistant genotypes.