Nova lista ambiental protege 24 fungos ameaçados de extinção no Brasil
Primeira lista nacional de espécies ameaçadas inclui 24 fungos e representa avanço histórico para a conservação, mas pesquisadores defendem mais ciência, financiamento, formação especializada e proteção de habitats.

O Brasil deu um passo inédito na conservação da biodiversidade ao publicar, em junho, a primeira lista nacional de fungos ameaçados de extinção. A medida inclui 24 espécies na agenda oficial de proteção ambiental e coloca o Reino Fungi, pela primeira vez, no mesmo patamar legal de plantas e animais.
Apesar do avanço, especialistas alertam que o país ainda corre contra o tempo. Mais de 90% das espécies de fungos estimadas no mundo não foram descritas pela ciência. Segundo o pesquisador Elisandro Ricardo Drechsler-Santos, no ritmo atual de financiamento e formação de taxonomistas, seriam necessários mais de mil anos para catalogar cerca de 3 milhões de espécies estimadas.
Biólogo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e coordenador do grupo MIND.Funga, Drechsler-Santos participou do processo que levou à criação da lista. A iniciativa reuniu especialistas do Grupo de Especialistas em Fungos do Brasil, do Centro Nacional de Conservação da Flora e da Rede de Taxonomistas da Funga do Brasil, com apoio do CNPq.
Um marco para a conservação
Para o pesquisador, a publicação representa a superação de uma histórica negligência. A inclusão dos fungos na legislação brasileira permite que espécies ameaçadas sejam consideradas em políticas e ações de conservação, além de estudos de impacto ambiental quando estiverem presentes nas áreas afetadas por obras e empreendimentos.

Ainda assim, a lista é apenas o começo. Drechsler-Santos defende a ampliação dos levantamentos de biodiversidade, das avaliações de risco e dos programas de conservação. A Coleção de Fungos Ameaçados do Brasil (CFAB), primeira iniciativa nacional de conservação ex situ desse tipo, busca preservar a diversidade genética de espécies em risco fora de seus ambientes naturais.
Entre as principais ameaças estão a perda e a degradação de habitats. Algumas espécies dependem de ambientes preservados, inclusive de grandes troncos de árvores maduras que permanecem na floresta após a queda natural. A redução desses elementos pode comprometer diretamente a sobrevivência de fungos especializados.
Habitat, invasoras e fogo
O pesquisador também aponta os impactos de espécies exóticas invasoras, introduzidas, por exemplo, junto a plantações de pínus e eucalipto. Em ecossistemas frágeis, como as matas nebulares do Sul do Brasil, a presença do gado agrava o problema ao pisotear áreas de regeneração e consumir plântulas. O javali também altera e destrói o solo, enquanto o fogo amplia os impactos.
A ciência cidadã aparece como outra ferramenta estratégica. Fotografias, aplicativos, sites e redes sociais podem permitir que pessoas sem formação especializada contribuam para registrar a biodiversidade. Para Drechsler-Santos, ampliar essa participação é essencial diante da dimensão continental do Brasil e de sua relevância para a diversidade global.
Formação de novos especialistas
O avanço das políticas públicas também aumenta a necessidade de formar novos micólogos. A área reúne diferentes frentes, como conservação ambiental, medicina e biotecnologia, e incorpora tecnologias como biologia molecular e bioinformática. Para o pesquisador, a expansão da pesquisa depende de oportunidades para preparar novos profissionais.
O reconhecimento oficial dos fungos representa, portanto, uma mudança de perspectiva, mas não encerra o desafio. Documentar espécies, compreender ameaças e transformar conhecimento científico em ações concretas de proteção são etapas necessárias para evitar que parte dessa biodiversidade desapareça antes mesmo de ser conhecida.
Referência da notícia
Mongabay. (2026). Fungos não serão mais negligenciados, diz pesquisador.