Entenda como a borra de café pode reduzir em 50% fungos na lavoura
Novo estudo mostra que extrato da borra de café reduziu pela metade dois fungos em laboratório e conteve bactérias fitopatogênicas, mas a possível aplicação agrícola ainda depende de testes de segurança, fitotoxicidade, formulação e eficácia no campo.

Segundo um novo estudo, um extrato produzido com borra de Coffea arabica reduziu em aproximadamente 50% o crescimento de dois fungos fitopatogênicos na dose de 10 mg/mL. O resultado interessa às cadeias de café, frutas e hortaliças no Brasil, México e Espanha, mas ainda vem exclusivamente de laboratório.
O aproveitamento desse resíduo pode transformar descarte em insumo para manejo de doenças, especialmente em períodos de umidade elevada e maior molhamento foliar. Isso poderia ampliar a economia circular e reduzir a pressão ambiental do descarte nas regiões produtoras. Porém, não há recomendação de aplicação na lavoura: faltam ensaios de fitotoxicidade, segurança, formulação, dose e eficácia em plantas.
Extrato de Hermosillo concentra compostos bioativos
A borra foi recolhida em 2022, após o preparo comercial da bebida em Hermosillo, no estado mexicano de Sonora, seca a 45 °C por 12 horas e submetida à extração com etanol e água. O rendimento de extrato seco ficou entre 12% e 15%. A caracterização, conduzida por pesquisadores do México e da Espanha, encontrou 91,26 mg de compostos fenólicos equivalentes a ácido gálico por grama de extrato.

Entre oito substâncias bioativas identificadas, destacaram-se ácido gálico, com 85,58 mg/g, cafeína, com 47,65 mg/g, e ácido clorogênico, com 15,31 mg/g. O material ainda continha 14,96 g de melanoidinas por 100 g e 16 aminoácidos. Para Brasil, México e Colômbia, grandes origens cafeeiras, a composição mostra valor tecnológico, não um produto pronto.
Fungos e bactérias respondem de forma diferente
Nos testes conduzidos com linhagens mantidas em Navarra, o extrato foi avaliado contra seis fungos. Alternaria alternata, Fusarium oxysporum e Penicillium charlesii seguiram para doses de 2, 3, 5 e 10 mg/mL. Após 72 horas a 27 °C, a maior dose reduziu em cerca de 50% o crescimento de Alternaria e Fusarium; Penicillium mostrou resistência comparativamente maior.

As bactérias Erwinia amylovora e Dickeya dadantii também responderam conforme a concentração. Em Erwinia, a supressão apareceu desde 5 mg/mL e foi mais forte com 15 e 20 mg/mL durante as primeiras 18 horas. Em Dickeya, 15 e 20 mg/mL mantiveram efeito por 24 horas. A evidência obtida entre Sonora, Navarra e os laboratórios espanhóis ainda não mede controle em pomares ou hortas.
- Em pomares do Sul do Brasil, 10 mg/mL é referência experimental, não dose de pulverização; chuva e molhamento exigem monitoramento local.
- Em hortaliças do Sudeste, respostas entre 5 e 20 mg/mL justificam pesquisa, sem substituir produtos registrados ou diagnóstico fitossanitário.
- Em cafezais de Minas Gerais, São Paulo e Espírito Santo, o resíduo pode ganhar valor, mas composição e segurança precisam ser padronizadas.
Do laboratório ao campo, ainda há etapas decisivas
A combinação de ácido gálico e clorogênico, a 5 mg/mL cada, bloqueou Alternaria e reduziu Fusarium, mas doses equivalentes a 3 mg/mL do extrato tiveram efeito apenas moderado. Isso sugere ação conjunta de fenólicos, cafeína, melanoidinas, aminoácidos e metabólitos ainda não identificados.
Antes de qualquer uso no Brasil, México ou Espanha, serão necessários testes em casa de vegetação e campo, além de avaliações de fitotoxicidade, resíduos, estabilidade e impacto sobre organismos benéficos.
Em períodos chuvosos, produtores poderiam priorizar ventilação do dossel, drenagem e janelas secas para operações. Qualquer futura formulação dependerá de registro, cultura, fase fenológica, clima e avaliação agronômica local.
Referência da notícia
Calderón, K., Castro-Díaz, R., Barba, C. et al. (2026). Antimicrobial activity of coffee bagasse (Coffea arabica) extract against phytopathogenic bacteria and fungi.