Tecnologia criada para buscar água em Marte ajuda a encontrar vazamentos subterrâneos na Terra
Sistema baseado em radar desenvolvido para pesquisas planetárias passou a ser usado por companhias de saneamento e pode recuperar bilhões de litros de água.

Uma tecnologia originalmente desenvolvida para auxiliar na busca por água em Marte está sendo aplicada na Terra para localizar vazamentos invisíveis em redes de abastecimento. O sistema utiliza imagens captadas por satélites equipados com radar de abertura sintética (SAR) e algoritmos de inteligência artificial para identificar perdas subterrâneas de água tratada.
A solução é utilizada pela empresa Asterra, que combina os dados obtidos por satélites com modelos capazes de reconhecer a assinatura eletromagnética da água potável. A técnica permite detectar vazamentos que ainda não chegaram à superfície, reduzindo desperdícios e direcionando as equipes responsáveis pelos reparos.
Recentemente, a tecnologia foi contratada pela Sabesp para atuar na Região Metropolitana de São Paulo. O acordo, avaliado em R$ 5,9 milhões, prevê dois anos de operação com a expectativa de recuperar 6,7 bilhões de litros de água.
Da exploração de Marte às redes de abastecimento
A origem do sistema remonta às pesquisas voltadas à identificação de reservatórios subterrâneos em Marte. Os satélites emitem ondas eletromagnéticas em banda L, capazes de atravessar a atmosfera e penetrar no solo, permitindo mapear características do subsolo.
Segundo Adriano Trovato, diretor da Nortech, representante da empresa no Brasil, as micro-ondas conseguem atingir até três metros de profundidade, mesmo em áreas cobertas por asfalto, vegetação ou outras estruturas superficiais.
Como o sistema identifica vazamentos
A água distribuída pelas cidades recebe tratamento químico, incluindo a adição de cloro. Essa composição gera uma assinatura eletromagnética específica, que pode ser diferenciada da umidade natural do solo, da água da chuva ou do lençol freático.

Após a coleta das imagens, os algoritmos cruzam as informações com os mapas das tubulações fornecidos pelas companhias de saneamento. O resultado é um mapa com áreas de maior probabilidade de vazamento, classificadas por prioridade.
Apesar da precisão do sistema, a confirmação continua sendo feita em campo. Equipes especializadas utilizam geofones, equipamentos capazes de amplificar o ruído produzido pela água escapando sob pressão. Quanto mais próximo da origem do vazamento, mais intenso é o som captado.
Sabesp aposta na redução das perdas de água
Nos primeiros meses da operação, a Sabesp planejou monitorar cerca de 9 mil quilômetros de tubulações em municípios como São Paulo, Guarulhos, Osasco e Carapicuíba. A expectativa é concentrar os esforços em regiões com maior potencial de recuperação de água.
Em testes anteriores realizados na Região Metropolitana de São Paulo, imagens de satélite indicaram 81 possíveis vazamentos em 50 quilômetros de rede, enquanto os métodos convencionais identificaram apenas 14 ocorrências no mesmo contexto.
Além do Brasil, a tecnologia já é utilizada em países como China, Japão e Emirados Árabes Unidos. Embora não substitua as equipes de manutenção, o sistema reduz o tempo necessário para localizar vazamentos e transforma uma ferramenta criada para procurar água em outros planetas em uma aliada contra o desperdício nas cidades.
Referência da notícia
Revista Superinteressante. (2026). Como satélite criado para procurar água em Marte pode encontrar vazamentos na Terra.