tempo.com

Perda de gelo no Ártico pode alterar a ocorrência de El Niños fortes

Um novo estudo explorou a possível relação da perda de gelo no Ártico e a ocorrência de El Niños. O principal resultado mostra que os El Niños fortes poderão ser mais frequentes se o Ártico perder totalmente seu gelo!

El Niño e Ártico
A cada ano o Ártico perde uma quantidade maior de gelo durante o verão boreal. Isso poderá impactar a ocorrência de El Niños no futuro!

Nos últimos anos tem sido observada uma diminuição substancial no gelo marinho do Ártico e as projeções climáticas indicam que nas próximas décadas o Ártico atingirá um estado sazonal livre de gelo. Muitos estudos já mostraram que essa redução do gelo marinho potencialmente implicará em alterações na troca de calor e umidade entre o oceano e a atmosfera, consequentemente alterando o sistema climático global!

Muitos estudos baseados em dados observacionais e modelos numéricos já mostram que a variabilidade do gelo marinho no Ártico é fortemente influenciado pelo grande padrão de teleconexão global, o El Niño - Oscilação Sul (ENOS), via trens de ondas atmosféricas (ondas de Rossby) que são disparados pelas alterações da convecção tropical sobre o Pacífico Tropical e influenciam os padrões de larga escala nos extratrópicos. Porém, pouco se sabia sobre a relação inversa: como a variabilidade do gelo marinho do Ártico poderia influenciar o ENOS!

Com isso em mente, pesquisadores climáticos dos Estados Unidos e China fizeram um estudo para analisar uma possível relação inversa! Os resultados dessa pesquisa foram publicados em um artigo na revista científica Nature, em agosto deste ano. Nesse estudo, os autores utilizaram modelos climáticos acoplados para fazer simulações futuras e mostraram que nenhuma mudança significativa aconteceria na ocorrência de El Niños (fase positiva do ENOS) de intensidade forte em resposta à perda moderada de gelo marinho do Ártico, o que é consistente com as observações de satélite até o momento.

De acordo com o estudo, uma grande fração do aumento dos El Niños fortes devido ao aquecimento do efeito estufa está ligado especificamente à perda de gelo marinho do Ártico.

No entanto, à medida que a perda de gelo aumenta ao longo dos anos e o Ártico se torna sazonalmente livre de gelo, os autores verificaram que a frequência de eventos fortes de El Niño aumenta em mais de um terço. Isso porque a ausência sazonal de gelo provocaria alterações nos ventos em altos e baixos níveis da atmosfera sobre o Pacífico que favoreceriam o aquecimento da Temperatura da Superfície do Mar (TSM) na porção leste do Pacífico Tropical, contribuindo para a configuração do El Niño.

El Niños fortes, como o de 2015, poderão ser mais frequentes se o Ártico atingir um estado sazonal livre de gelo. Imagem: NOAA.

Ao comparar os experimentos feitos com a redução do gelo marinho do Ártico com os experimentos de aquecimento global devido ao agravamento do efeito estufa, os autores concluíram que pelo menos 37-48% do aumento da ocorrência de El Niños fortes perto do final do século 21 está associado especificamente à perda de gelo marinho do Ártico!

El Niños devem ser mais frequentes até 2040

Após muitos anos de pesquisa e análises de dados, há um consenso geral no meio científico, embora não universal, de que a frequência de eventos de El Niño aumentará em decorrência do aquecimento global, principalmente a ocorrência de El Niños fortes, dentro das próximas décadas.

Outra pesquisa publicada na Nature Climate Change, também usando modelos climáticos acoplados, mostrou que até 2040 os eventos de El Niño se tornarão mais frequentes devido às mudanças climáticas. Além disso, a pesquisa mostra que essa mudança já está em andamento e continuará acontecendo independentemente dos esforços de mitigação de emissões de gases de efeito estufa em curto prazo.