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O aquecimento do Ártico e os eventos extremos do Hemisfério Norte

Os eventos extremos que tem assolado diversos países do hemisfério norte nos últimos anos, como as chuvas torrenciais e as intensas ondas de calor, podem ser uma consequência do acelerado aquecimento do Ártico observados nos últimos anos.

A onda de calor que tem assolado a Europa nesse verão boreal pode estar associada ao aquecimento do Ártico (AFP/Getty Images).

Nas últimas décadas temos observado uma das regiões mais sensíveis do planeta sofrer com os efeitos do aquecimento global, o Ártico. Recordes de temperaturas e de derretimento de gelo marinho são registrados a cada ano, e suas consequências não se restringem somente ao Ártico, elas podem ocasionar mudanças na circulação atmosférica planetária, modulando a ocorrência e duração de eventos extremos como, por exemplo, a atual onda de calor do hemisfério norte.

Em um estudo publicado na segunda-feira (20) na Nature Communications, cientistas de vários países mostraram que as mudanças no Ártico podem estar influenciando a circulação de verão do hemisfério norte, favorecendo a ocorrência de eventos quentes e secos. Uma das principais justificativas é a de que o aquecimento do Ártico está alterando a intensidade e posicionamento dos fortes ventos de oeste que sopram na alta troposfera, os jatos de altos níveis.

Os jatos de altos níveis são a principal via de propagação de ondas planetárias (chamadas de ondas de Rossby) que, por sua vez, transportam os centros de alta e baixa pressões ao redor do mundo. A intensidade desses jatos está estritamente associada a diferença de temperatura entre a região polar e equatorial, o que chamamos de gradiente térmico. Quanto mais intenso o gradiente térmico, mais intensa será a corrente de jato e mais rápida será a propagação dessas ondas.

Mecanismos dinâmicos associados a alterações no posicionamento e intensidade dos jatos de altos níveis devido ao aquecimento do Ártico (AA) (Nature Communications).

O acentuado aquecimento do Ártico, que tem esquentado cerca de 2 a 4 vezes mais rápido do que o resto do mundo, tem reduzido o gradiente térmico entre o polo norte e a região equatorial, o que acaba por enfraquecer a circulação dos jatos de altos níveis e das ondas planetárias. O enfraquecimento desse guia de ondas faz com que os centros de alta e baixa pressões se desloquem mais de devagar, ficando quase estacionados em determinadas regiões.

Essa “estacionariedade” dos sistemas faz com que os eventos extremos fiquem ainda mais extremos. Os períodos de seca e temperaturas altas podem durar ainda mais com a persistência de um centro de alta pressão, assim como os períodos de chuvas fortes podem durar mais com a persistência de uma baixa pressão. A persistência anormal de um centro de alta pressão sobre a Europa tem sido a principal responsável pela onda de calor desse ano.

E como será no futuro?

Grande parte das projeções climáticas indicam que os jatos de altos níveis continuarão a enfraquecer devido ao aquecimento do Ártico, porém ainda existem muitas incertezas nessas projeções. As alterações nos jatos e no padrão de ondas atmosféricas não é só um efeito do aquecimento acelerado do Ártico, padrões de teleconexões, mudanças na interação oceano-atmosfera, alterações na cobertura do solo e outros processos climáticos atuam simultaneamente ao aquecimento do Ártico. A interação entre esses diversos processos ainda é uma grande incógnita para a maioria dos modelos de previsão atmosféricos.