Impulsionado pelo El Niño, oceanos batem recorde histórico de temperatura em agosto
A temperatura diária da superfície dos oceanos atingiu um novo recorde histórico global em agosto de 2026, segundo dados do Copernicus e da NOAA. As duas principais bases de monitoramento oceânico do mundo registraram os maiores valores já observados em suas séries históricas.

Os oceanos do planeta registraram em agosto de 2026 a maior temperatura diária já observada desde o início dos registros globais. Dados independentes da NOAA, por meio do Climate Reanalyzer, e do Copernicus, o Serviço Europeu Para Mudanças Climáticas (C3S/ECMWF) mostram que a temperatura média da superfície do mar entre 60°S e 60°N atingiu níveis sem precedentes, superando inclusive os recordes estabelecidos em 2024.
O novo marco ocorre em meio ao fortalecimento de um intenso episódio de El Niño no Pacífico Equatorial, com previsão de ser um evento histórico, que tem contribuído para elevar ainda mais o calor acumulado nos oceanos, principal reservatório de energia do sistema climático terrestre. Confira os detalhes.
Observatório Copernicus registra recorde absoluto de TSM diária
O Observatório Copernicus registrou o dia mais quente da história dos oceanos no último dia 22 de agosto na série histórica do ERA5, um dos bancos de dados mais consolidados do mundo, com média diária 21,10°C. Este foi o maior valor registrado desde 1979, ano de início dos dados, superando os recordes anteriores de fevereiro de 2024 - o ano mais quente da história até hoje.

No gráfico acima cada linha representa a média diária de um ano, com os anos entre 1979 e 2023 representados por linhas cinzas, a média de 1991-2020 representada pela linha pontilhada e, em cores, os anos mais recentes (e também os mais quentes): 2024 (amarelo), 2025 (vermelho) e 2026 (vermelho escuro). Um traço vermelho foi adicionado para evidenciar que este valor é maior que os demais.
Esta visualização deixa claro como o ano de 2026 vem se destacando dos demais, batendo recordes seguidos em junho, julho e agosto. Enquanto os recordes em junho e julho foram relativos aos seus respectivos meses em anos anteriores, a TSM diária de 22 de agosto de 2026 bateu o recorde absoluto de toda a série, ou seja, um valor jamais observado anteriormente.
NOAA também registra recorde de TSM diária
Os gráficos divulgados pelo Climate Reanalyzer, baseado nos dados NOAA OISST, também indicam um recorde de TSM diária, mas no dia 23 de agosto, com 21,24°C. O NOAA OISST é um conjunto de dados global de temperatura da superfície do mar que combina observações de satélites, boias e navios para monitorar diariamente as condições oceânicas desde 1981.
A visualização do gráfico é semelhante à do Copernicus, com os anos iniciais da série em cinza, 2025 em amarelo, 2026 em vermelho e as médias históricas em linhas tracejadas. Novamente, um traço vermelho foi adicionado para evidenciar que o valor é superior que os demais.

A diferença na data do recorde entre o Copernicus (22 de agosto) e a NOAA (23 de agosto) é normal e esperada, pois cada instituição utiliza conjuntos de dados e metodologias distintas para estimar a temperatura da superfície do mar.
Essas diferenças na forma de processar e integrar os dados podem resultar em pequenas variações nos valores absolutos e no momento exato em que um recorde é registrado, sem alterar a conclusão principal: os oceanos atingiram os maiores valores de temperatura já observados nas respectivas séries históricas.
Por que as séries históricas são recentes?
As séries históricas utilizadas para estes recordes começam em 1979 e 1981, e isso se deve ao fato de que 1979 é um marco do início da era moderna de monitoramento climático por satélites. Antes disso, as medições da TSM dependiam principalmente de observações feitas por navios e boias, que apresentavam cobertura muito limitada dos oceanos.
A partir do final da década de 1970, a expansão das observações por satélite permitiu acompanhar diariamente a temperatura dos oceanos em escala global, tornando as comparações entre anos muito mais consistentes. Por isso, quando NOAA e Copernicus apontam que agosto de 2026 registrou a maior temperatura diária da série, isso significa que os oceanos estão mais quentes do que em qualquer outro momento desde o início das observações globais por satélite, há quase meio século.
O papel do El Niño nos recordes
Na região Niño 3.4, principal área de monitoramento do El Niño, o gráfico do Climate Reanalyzer mostra que a TSM vem quebrando recordes históricos para os meses de junho, julho e agosto de 2026. Esses são os maiores valores já observados para esta época do ano desde o início da série histórica, evidenciando a rápida intensificação do fenômeno.

Apesar do aquecimento excepcional, a temperatura ainda não superou o recorde absoluto registrado durante o super El Niño de 2015-2016, quando a região Niño 3.4 atingiu 29,82°C em 29 de novembro de 2015 (indicado pela seta vermelha no gráfico).
Isso significa que o El Niño 2026/2027 possui ampla margem para se intensificar nos próximos meses, uma vez que o pico do aquecimento ocorre entre a primavera e o verão do Hemisfério Sul. As previsões mais recentes dos modelos climáticos indicam que a anomalia de temperatura na região Niño 3.4 poderá atingir cerca de +3,5°C no final de 2026. Caso esse cenário se confirme, o evento irá superar a intensidade do super El Niño de 2015-2016 e se consolidar como o mais intenso da história.
Além de elevar ainda mais a temperatura dos oceanos, um El Niño dessa magnitude tende a contribuir para novos recordes de temperatura global do ar próximo à superfície entre o final de 2026 e o decorrer de 2027.