As chuvas em São Paulo estão ficando mais intensas?

São Paulo pode estar deixando de ser a terra da garoa para ser a terra das tempestades?! De acordo com estudos, a quantidade de dias com chuva forte ou moderada cresceu, enquanto que o número de dias com chuva fraca diminuiu!

Paola Bueno Paola Bueno 12 Mar. 2019 - 06:12 UTC
Aparentemente, as chuvas na grande região metropolitana de São Paulo estão ficando mais intensas e severas.

As fortes chuvas que tem ocorrido na grande região metropolitana de São Paulo, como a ocorrida entre domingo e segunda-feira, nos faz questionar: será que São Paulo está deixando de ser a terra da garoa para ser a terra das tempestades?

Cada ano que passa nos surpreendemos com a fortes tempestades que assolam a capital paulista, principalmente durante o verão. Essas tempestades são comuns nesse período, mas a intensidade delas parece ter sido alterada ao longo dos últimos anos. De acordo com estudos feitos por meteorologistas e outros cientistas, provavelmente estamos presenciando uma mudança no regime de chuvas em São Paulo.

De acordo com um estudo publicado em 2017 na International Journal of Climatology, através da análise de mais de 70 anos de dados de chuva da região Sudeste do Brasil, pesquisadores observaram um aumento da frequência e intensidade das chuvas extremas no estado de São Paulo. De maneira inversa, há uma tendência de diminuição do número de dias com chuva e do número de dias com chuva fraca (acumulado menor que 5 mm ao dia). O que isso quer dizer? Aparentemente estamos deixando de ter dias com chuvas mais fracas e passando a ter menos dias de chuva, mas essas chuvas são bem mais intensas e com maior volume de água.

Por que isso está acontecendo?

De acordo com os pesquisadores, dois fatores podem estar relacionados com a mudança do regime de chuvas: as mudanças climáticas e o efeito da ilha de calor urbana. As mudanças climáticas de escala global alteram a atuação dos principais sistemas meteorológicos responsáveis pelas chuvas na região Sudeste, como a Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS). Alguns estudos indicam que nos próximos anos poderá haver um deslocamento para sul da posição média das ZCAS, o que, consequentemente, aumentaria a ocorrência de dias com chuvas volumosas sobre São Paulo.

Em regiões altamente urbanizadas, as chuvas são ainda mais exacerbadas devido ao efeito de ilha de calor. A ilha de calor faz com que a região urbanizada fique bem mais quente que seu entorno, isso acaba tornando a cidade um imã de chuva! Quando o ar das regiões mais frias converge para essa ilha de calor, o choque entre essas diferentes massas de ar resulta em intensas tempestades. Além de aumentar a intensidade das chuvas, a ilha de calor também pode ser uma das responsáveis pela diminuição da ocorrência de garoa na grande São Paulo!

Ilustração da combinação do efeito da brisa marítima com a ilha de calor urbana. Fonte: Revista FAPESP.

Além disso, a proximidade do oceano Atlântico também ajuda na formação das grandes tempestades através do transporte de umidade trazido pela brisa marítima, durante a tarde. Entre 1950 e 2010 a temperatura superficial do oceano Atlântico no litoral paulista aumentou cerca de 1 °C, apesar de parecer pouco, esse aquecimento aumenta a taxa de evaporação no oceano, tornando a brisa marítima ainda mais úmida e aumentando o combustível das fortes chuvas em São Paulo.

Todos esses fatores podem estar atuando em conjunto e potencializando as chuvas na grande São Paulo. Infelizmente, enquanto não houver uma mitigação dos efeitos das mudanças climáticas e da crescente urbanização desorganizada, continuaremos a caminhar para um futuro com menos dias de chuva, mas aqueles com chuva serão ainda mais extremos!

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